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Recuperando a coroa 
 

 Maria Bethânia grava Roberto Carlos e volta a integrar o time das campeãs de audiência da MPB

Não adianta nem tentar esquecer Roberto Carlos e Maria Bethânia. Durante muito tempo em sua vida eles ainda vão viver. Roberto e Bethânia já formaram o casal real da MPB no final dos anos 70, quando a cantora baiana vendia 700 000 cópias e era a única voz feminina a se aproximar do milhão de discos vendidos a cada ano, religiosamente, pelo autos de Quero que Vá Tudo para o Inferno. Uma década se passou e Roberto continuou um relógio em seu sucesso. Já a rainha teve que abdicar do trono. Suas interpretações dramáticas saíram de moda diante da onda de Marisas Montes que, com seus repertórios técnicos e ecléticos, tomaram de assalto a MPB. Depois de uma década mantendo apenas seu público fiel, que lhe garantia uma magra vendagem de 40 000 discos, Bethânia teve a iluminação de voltar a cantar as cações de Roberto e Erasmo Carlos. È o que ela sabe fazer. E o faz hoje como ninguém, exceto o próprio Rei. Por isso, o álbum As Canções que Vice Fez Pra Mim é um êxito mais avassaladores da música brasileira neste ano.

O disco, lançado a pouco mais de um mês, vendeu 220 000 cópias. Uma das músicas, Fera Ferida, será o tema da próxima novela das 8 da Rede Globo, o que potencializará as vendagens do LP. Como se não bastasse, a Coca-Cola encomendou 200 000 compactos duplos com as quatro músicas mais conhecidas do álbum - Emoções, Costumes, Olha e Seu Corpo - para dar de brinde a seus clientes. A gravadora prevê que meio milhão de cópias seja vendido até o final do ano. "Queríamos lançar no mercado um produto que atingisse o grande público e, ao mesmo tempo, tivesse qualidade suficiente para ficar bom em CD", conta Max Pierre, diretor artístico da gravadora Polygram. "Deu certo: 100 000 cópias vendidas de As Canções que Você Fez pra Mim saíram em CD".

Drama e Susurros - Para que o disco resultasse num produto sofisticado foram mobilizados três países. Do Brasil, terra da batucada, veio a parte rítmica. Bateria, guitarra, violão e arranjos de base foram feitos aqui. Depois, cruzou-se o Atlântico e se mobilizou, na Inglaterra, uma potentosa orquestra de cordas com 42 instrumentistas, comandadas por um súdito se sua majestade: o maestro Graham Preskett, acostumado a gravar trilhas de filmes. Perfeccionista, Preskett pediu a tradução de todas as letras de Roberto, de modo a enfatizar com suas cordas as idéias contidas nas letras. Faltavam os metais. Para inseri-los, voo-se até o país do jazz, os Estados Unidos, com seus saxofones, trombones e trompete. As partituras dos metais são de Jerry Hey, arranjador da banda funk Earth, Wind and Fire.

Com tantas idas e vindas, somando-se o fato de que os arranjadores inglês e americano trabalharam simultaneamente sem que um soubesse o que o outro estava fazendo, correu-se o risco de desembocar no bolero da baiana doida. Não é o que acontece. Em As Canções que Você Fez pra Mim a voz de Bethânia, os vilinos de Preskett e os metais de Hey falam a mesma língua:a da emoção tão sincera quanto derramada. Por mais que tenha tentado soar intimista em seus últimos discos, Bethânia nunca abandonou seu estilo "fossa expressionista", em que a intenção de cada palavra é sublinhada por uma inflexão embargada da voz. Roberto Carlos é sucesso há vinte anos com um romantismo intimista, com sua maneira única de destilar paixões intensas como quem sussurra no ouvido da amada. Bethânia desentranha o drama de cada um dos sussurros de Roberto. Assim, a triste ironia, meio vingativa na sua dor-de-cotovelo, de Detalhes , em que o amante abandonado pragueja:
        Não adianta nem tentar me esquecer / 
        Durante muito tempo em sua vida eu vou viver / 

se transforma num lamento de perda na voz de Bethânia.
As canções de Roberto e Erasmo Carlos, de tão entranhadas que estão no gosto popular, mais dificultam do que facilitam a vida de quem se mete a reinterpretá-las. Por isso, só grandes cantoras conseguem dar-lhes um novo lustro. Em 1978, Nara Leão, uma artista genial, gravou um disco inteiro com as músicas da dupla, E que Tudo Mais Vá pro Inferno, privilegiando as canções que falavam de amores frustrados, repressão, romantismo e rebeldia. É um disco de beleza excepcional (que obviamente a gravadora não relançou), um encontro da Bossa Nova com o Iê iê iê. Bethânia, de outra raça, calca fundo no derramamento. Ela se excedeu ou, como dizem os pedantes, é over. Mas quando entoa, em voz rouca, a banalidade portentosa de 
      Um grande amor não vai morrer assim / 
      Por isso de vez em quando você vai/ 
      Lembrar de mim/ 
algo de misterioso acontece. O mistério da memória, dos amores perdidos, da beleza, da força que só as canções baratas, aquelas que definem a sensibilidade de um povo, são capazes de proporcionar.

João Gabriel de Lima
Revista Veja
17/11/93