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A idéia me veio num vôo entre Bahia e Rio de Janeiro. Primeiro veio o nome do disco tão claro apesar de longo e pouco comum em títulos dos trabalhos que faço. Gosto das palavras poderosas que carregam em si perguntas e respostas, abismos e chão firme, rios subterrâneos, mares luminosos:
Âmbar, Álibi, Talismã, etc...
Mas aqui, a minha opinião era o que menos interessava. Somente o essencial: minha fé, profundo amor por Nossa Senhora, o coração manso e a voz que Deus me deu. Dentro do turbilhão da vida, todos os momentos e encontros dedicados a realizar este disco foram encantados, inesquecíveis, de uma suavidade como há muito, ou melhor, só quando criança experimentei.
Primeiro passo foi conversar com meu maestro Jaime Alem; senti logo que sua sensibilidade fora flechada. Daí em diante foi difícil para nós dois, cumprirmos a agenda de shows, etc, tal o ânimo e prazer que nos invadiu esse trabalho. Há muito não via o maestro tão feliz. Mais tarde, quando criava as vozes para o coro, ele me confirmou comovido o bem que esse trabalho havia lhe feito. Conversei também com Fauzi Arap, meu mestre-amigo querido e no outro dia que falamos sobre o projeto, ele já me enviava o seu poema tão forte, sua oração contemporânea, oração de todos nós que vemos a degradação dos homens e do planeta. E que ao mesmo tempo sabemos que o azul que o Gagarim falou sempre foi o Seu manto, protegendo a Terra.
Um outro dia, num meio-dia, o Wally me telefona e me conta que havia sido "varado", na madrugada anterior, por um poema cujo o endereço era a voz de "Dona senhora" (mais um dos inúmeros nomes, títulos que, com seu humor e a liberdade que a nossa amizade permite, ele inventa para mim). --- "Dona senhorinha" --- respondi-lhe. Pois intuí de imediato que o seu poema era para Nossa Senhora. Fiquei muda por toda beleza.
Mabel, minha mãe de leite, havia me pedido para fazer a capa de seu livro sobre Candeias que, como tudo o que ela faz, é de cortar o coração de tão bonito e puro. Encontrei ali alguns versos dos romeiros e montei uma sequência com outros daqui e dali e mostrei ao Gil, que quis musicar. E não só: tocou violões e colocou junto à minha, a sua voz, iluminando mais ainda, junto à luz das Candeias, esse trabalho.
Maria Isabel escreveu a Ladainha de Santo Amaro para a missa de ação de graças dos meus 50 anos. Sou santamarense e sei bem dessa maneira ímpar de adorar, reverenciar, louvar Nossa Senhora com uma intimidade só nossa. A alegria para mim é a maneira mais adequada de louvar Nossa Senhora.
A primeira vez que ouvi "Nossa Senhora da Ajuda" de Suely Costa, com a poesia de Cecília Meireles, e todas as vezes que canto e sinto a grandeza e a profunda beleza dessa canção, só consigo pensar no abandono das crianças nas ruas do mundo.
A Ave Maria de Caetano foi composta para o casamento de dois amigos, ainda quando éramos estudantes em Salvador. Foi a primeira vez que cantei em uma Igreja: Nossa Senhora da Vitória. Não poderia louvá-la esquecendo essa linda canção, aqui enriquecida com a beleza e suavidade da voz de Nair de Cândia.
O repertório todo foi escolhido com o meu coração manso e feliz em poder conversar com Ela, fazer as minhas preces e súplicas e elevar o meu canto à Sua luz. Os trechos da novena composta no século XIX, em louvor à Nossa Senhora da Purificação, padroeira da minha terra e Quem inspirou e permitiu realizar esse trabalho, são cantados aqui com alguns erros, de letras e notas musicais, como a minha memória guarda da infância, quando "ofertei flores", ou fui "anjo", "arcanjo", e tive o privilégio de coroá-la.
João Carlos Coutinho, Márcio Mallard, Ricardo Amado, Reginaldo Vargas, Zero, músicos da minha banda que com grandeza de espírito ofereceram suas horas de trabalho à Nossa Senhora e a Seus projetos. Também as vozes de Rafael Pieri, Tahta Menezes, Viviane Godoy, Jaime Alem, Nair Cândia e Rômulo Gomes, que aqui estiveram exatas e luminosas, a serviço de Nossa Senhora. Gringo Cardia e sua equipe, responsáveis por todo o projeto gráfico, que generosamente dedicaram sua criação à Ela. Pedi ao Gringo que utilizasse a imagem da Divina Pastora na capa do disco, pois creio que a intenção, a utilidade desse trabalho é trazer para o colo Dela cada vez mais os Seus filhos.
Pedi a minha mãe, Dona Canô, que rezasse a ladainha, essas palavras tão fortes, pois creio que ela, do alto dos seus 93 anos de doçura, alegria, amor à vida, bondade, sabedoria e devoção, poderá ter a sua súplica atendida, mais prontamente, em nosso favor.
Salve Maria! Salve Rainha!
Cuida de tudo, que tudo é teu.
Texto de Maria Bethânia escrito para o encarte do disco
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