:: Maria Bethânia::
 
 

 

 

 

:: Carreira

:: Entrevistas

:: Críticas Musicais

:: Shows e Notícias

:: Últimas Notícias

:: Discografia

:: Fotos

:: Por Caetano

:: Links

:: D. canô

:: Autor

:: Visitas

.















 

 

   

:: Show

Uma baiana sem Gerald

Maria Bethânia estréia show com o diretor Gabriel Villela e garante que não haverá surpresas 

Enquanto Gal Costa aliou-se a Geral Thomas e produziu o polêmico show O Sorriso do Gato de Alice, em que protagoniza a tão criticada a cena de nudez , Maria Bethânia encontrou no diretor Gabiel Villela a parceria perfeita para mostrar sua alma interiorana e romântica, formando quase que uma dupla sertaneja. “Sou do interior e Gabriel também. No nosso primeiro encontro parecia que nos conhecíamos a um bom tempo”, diz a cantora, nascida em Santo Amaro da Purificação. Gabriel –criado na minúscula Carmo do Rio Claro, no interior de minas – vive lua de mel semelhante com a mais doce dos baianos bárbaros. “Bethânia tem uma inteligência cênica impressionante. Ela nunca descuidou da teatralidade”, rasga seda o diretor, que pela primeira vez encara a concepção de um show. 

O espetáculo marca o encontro de um diretor de teatro extremamente musical com a intérprete brasileira que melhor explora a arte de representar. Aliás, antes de desembarcar no Rio em 1965, aos 17 anos, Bethânia alimentava o sonho de ser atriz. Com o tempo, o desejo esmaeceu. “Minha paixão era o teatro, mas vi que no palco só a palavra não me satisfazia. Tinha que Ter música também”, conta. Deu certo. Bethânia é uma artista que detém unanimidade de público e crítica. Entre os Doces Bárbaros, ela é a campeã de vendagem de discos. Está também na seletíssima galeria de cantoras brasileiras que já ultrapassaram a marca de 1 milhão de cópias vendidas de um único disco. Com ela, isso aconteceu duas vezes: Com Álibi, em 78, e Mel, no ano seguinte. O último trabalho, As canções que voc6e fez pra mim, gravado em 93, caminha para recordes também. 

Quanto ao novo show a expectativa é enorme. Depois da polêmica em torno de Gal, a estréia de Bethânia é esperada por seu público com curiosidade. A definição de Gabriel Villela é vaga. “Será um show para uma rainha cantar. O espetáculo é uma colcha de retalhos, cheio de misturas. O visual é inspirado no artista mambembe. Os movimentos de luz são calmos e serenos e não haverá efeitismos, mas sim uma poesia muito grande”, antecipa. De personalidade enigmática, Bethânia também revela pouco sobre o espetáculo. Sabe-se, no entanto, que o repertório terá as músicas de seu último disco, sucessos antigos e algumas poucas novidades. “Cantarei a coisas de que mais gosto: Santo Amaro, Mangueira, amor e amizade. Aprecio um chão bonito, elegante e livre.”, arremata com sua simplicidade. 

O envolvimento da dupla é uma espécie de casamento artístico por correspondência. Bethânia, que já foi dirigida por gente de teatro – Augusto Boal, Ulysses Cruz, Naum Alves de Souza e Fauzi Arap - , nunca viu uma peça de Gabriel Villela, mas ao assistir um vídeo da peça Vem buscar-me que eu ainda sou teu sentiu amor à primeira vista, além de já Ter as melhores referências do diretor, dadas pelo cantor Orlando Moraes. Ela marcou um encontro e, desde então, os dois tem se visto diariamente. Na maturação do show, trocaram muitas histórias, viajaram juntos para Santo Amaro e discutiram tudo: cenografia, iluminação, roteiro e repertório, que, adiantam, terá algo de Milton Nascimento, Chico Buarque e dos compositores baianos Roberto Mendes e Jorge Portugal. “Tudo nasce de um respeito e de uma confiança muito grande. A traição é uma cena insuportável”, diz a artista. 

Fora do palco, Maria Bethânia é uma pessoa tímida. Fala pausadamente, com enormes intervalos. Surpreende, às vezes, ao retornar ao mesmo assunto após um grande silêncio. Até sentir-se segura e à vontade, raramente olha nos olhos do interlocutor. Pronuncia frases curtas, com olhar distante, perdido mesmo. “Tenho um comportamento interiorano. Sou muito caseira. Só saio para trabalhar ou visitar alguém.”, revela. Essa postura fez com que a cantora se ausentasse de shows internacionais por dez anos: de 1972 a 82, ela não saiu do Brasil. Em 72, a frieza e o excesso de disciplina dos alemães traumatizaram a artista. “Foi torturante”, lembra. Não que ela seja indisciplinada, muito pelo contrário. Dorme e acorda muito cedo. Chega até a sugerir uma espécie de cruzada nacional para que os espetáculos no Brasil comecem mais cedo. Assim, no seu caso, sobraria mais tempo para cuidar da casa, atividade que adora fazer: “Sou dona-de-casa. Não tenho sequer cozinheira, pois gosto de preparar o que vou comer”. 

É pregar no deserto cobrar de Bethânia tomada de posições marcantes. Isso nào é do seu feitio – ela é bem diferente do mano Caetano. Fora de cena, pouco aparece. Sai pouco de casa. Dificilmente é flagrada na noite ou em programas de TV e fala menos ainda de si própria, uma forma de preservar a intimidade. “O meu lado artístico é que interessa ao público. Só converso com a imprensa quando tenho que falar sobre o assunto”, diz a cantora. Bethânia é uma diva diferente. Para cantar na televisão, só em ocasiões muito especiais. Ela não se sente à vontade com a rigidez das marcações cênicas que o veículo impõe. “Sei que faço tão mal TV , e é tanta gente vendo aquilo . Não rendo nada. Fico fechada.” Lê muito revista em quadrinhos, sem distinção de personagem: Luluzinha, Super-homem e Mônica. Jornal? Folheia. “O Caetano diz que eu não leio jornal porquê o vento vira as páginas e atrapalha. Mas jornal é mesmo complicado de ler. É muito grande”, conta, rindo. 

Pode ser. Mas ai de quem tachar a intérprete de preguiçosa. “Uma amiga diz que de baiana hoje eu só tenho os parentes”, destaca. Perfeccionista ao extremo, Bethânia ensaia exaustivamente os seus espetáculos: “Em ensaio, acho que está sempre de menos. Sei que nisso eu sou insuportável e cansativa. Mas subir no palco é que nem pilotar avião: as coisas tem que funcionar, senão...” Quem sofre com isso é o maestro Jaime Alem, que acompanha a artista há dez anos. “Bethânia é um exemplo de como o profissional deve trabalhar. É a pessoa no mundo que canta com mais emoção”, derrama-se em elogios Alem, o diretor musical. O preciosismo angustiou muito a intérprete nos tempos de shows em boate. Isso no fim dos anos 60, quando Bethânia chegou ao Rio, em 1965, escancarando as portas para a vinda dos Doces Bárbaros. “A boate foi uma escola maravilhosa, mas achava que tinha pouco tempo para ensaiar.” 


Longe do exibicionismo, mas perto da vaidade. “Sou vaidosíssima. O que mais gosto em mim é a voz, principalmente porque ela me traduz. É o meu instrumento, minha arma e o que me sustenta.” A cantora incorpora ao vestuário sua religiosidade. Comumente, veste-se de branco, do blazer à sapatilha, com tiras de miçangas sobre a camisa nas cores de seus pais espirituais no camdomblé: Iansã e Oxóssi. No catolicismo, é devota de Nossa Senhora da Purificação e de Santa Bárbara. “Gosto muito de Ter fé. Preciso rezar. Gosto do limite que a religião coloca”, resume. O que , de forma alguma, não significa dizer que seu espírito não esteja livre, muito livre: “Deixo bastante a intuição me guiar.” Antes dos espetáculos, costuma reunir toda a equipe para orações. “O palco é um espaço sagrado”. 

Quando entra em estúdio, costuma gravar muito rápido, ao contrário dos intermináveis ensaios para preparar um show. Seu último disco, por exemplo, foi feito em apenas 12 hora. Poucas vezes na carreira refez uma gravação 

Até o fim do ano, Bethânia terá pouco tempo para passear de barco, misto de hobby e terapia que ela mantém. “Me faz bem tirar o pé do chão”, diz, enigmática. Seria uma metáfora ou não? O certo é que terá um trabalho intenso este ano. Faz cinco semanas no Canecão, o que é apenas o começo. Depois vai para o Pálace, em São Paulo. Em junho e julho faz trunê pela Europa , em que o destaque é a apresentação dos Doces Bárbaros em Londres. Volta ao Brasil em agosto para exibições no Sul, Norte e Nordeste. Ela está em forma para encarar a maratona: “Cantar, para mim, é uma necessidade”, diz, com bom humor, o que afirma ser uma de suas características. “Sou alegre por natureza”, diz a cantora, ou para ser mais preciso, a intérprete. “Antes de ser uma cantora, sou uma intérprete”, corrige. Essas duas forças, a voz e sua presença no palco, são o presente para os cariocas neste fim de estação. 

Sérgio Garcia
1994