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Cinco vozes femininas, um só palco, e duas horas de MPB comandada pela cantora Maria Bethânia em comemoração aos seus 35 anos de carreira.
Essa é a tônica das apresentações de hoje e amanhã no Credicard Hall, que trazem como convidadas as cantoras Alcione, Jussara Silveira, Vânia Abreu e Belô Velloso, sobrinha de Bethânia.
Os shows dão prosseguimento a um projeto criado na Bahia, o Caixa Acústica - Mulheres, que traz cantoras consagradas ao lado de jovens talentos, unidos pela mesma linha musical. Bethânia e suas convidadas subiram pela primeira vez ao palco na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, Salvador, em agosto, numa apresentação marcada pela afinidade.
O tom familiar do show não se deve apenas pela presença da sobrinha Belô, mas também pela relação entre as cantoras e suas influências.
O último álbum de Alcione, por exemplo, Nos Bares da
Vida, lançado em abril, partiu de uma sugestão de Bethânia. Já Vânia, Jussara (apesar de mineira) e Belô fazem parte de um núcleo de cantoras que saíram da Bahia e que têm no pop fortes referências. Belô e Jussara também são amigas de longa data.
"É um clima muito harmônico. Foi mágico subir ao palco com elas em Salvador e foi também minha primeira vez num show ao lado de Bethânia, apesar de ela ter participado de meu primeiro CD", conta Belô, a caçula da turma, com 29 anos, e atualmente lançando seu terceiro disco, MaRés.
O show é aberto por Bethânia interpretando antigos sucessos como
Tocando em Frente e depois revezando-se com as convidadas no palco. Cada uma terá apresentação solo e algumas farão duetos com a anfitriã. O show ainda será permeado com músicas cantadas por todas juntas, como
Bahia com H, de Herivelto Martins.
Baianidades
"Não posso contar o que cantaremos juntas, mas são baianidades", desconversa Belô, fazendo mistério. Sobre baianidades, leia-se um pot-pourri de canções de Caymmi e algumas surpresas. No repertório de Belô estão
Toda Sexta-feira, de Adriana Calcanhoto, e, no dueto com Bethânia,
Lua Branca, de Chiquinha Gonzaga.
Alcione canta Lamento Sertanejo, de Gilberto Gil, e, junto com Bethânia,
O Meu Amor, de Chico Buarque. Já a também compositora Vânia Abreu interpreta
Mais de Mim, música de seu terceiro disco, Seio da
Bahia. Jussara fecha o time, cantando Dama do Cassino, de Caetano Veloso e
Falsa Baiana, de Geraldo Pereira, música perfeita para a filha de baianos nascida em Minas.
"Acho que Bethânia nem atinou para o título desta música", comenta Jussara. "Ela escolheu o repertório, mas nos perguntou o que gostaríamos de cantar, fez sugestões. Foi
tudo muito confortável. Ela sabe receber as pessoas."
AS VOZES
MARIA BETHÂNIA
Madrinha da festa, Maria Bethânia quis ter como companheiras de cena as novas vozes da
Bahia, mas vozes que guardassem afinidades, se não estilísticas, pelo menos comportamentais com ela mesma. Cantoras de personalidade, das
que escolhem o que fazem e não se arrependem dos riscos que possam correr, como ela mesma jamais se arrependeu. Essa atitude, essa coragem, são elementos que fazem de Maria Bethânia uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos - atitude e coragem que se ligam ao talento extraordinário que não diz respeito apenas ao canto, à voz belíssima que o tempo vem tornando mais bela, mas também à personalidade intensa que dá força faz transparecer a sinceridade e empresta sentido realístico à intepretação dramática, muitas vezes teatral.
JUSSARA SILVEIRA
Ela é uma daquelas cantoras identificadas com a Bahia que, no entanto, não nasceu na Bahia. Jussara Silveira é de Minas Gerais. Pertence à mais digna das escolas das novas cantoras brasileiras - a que prima pelo rigor na seleção do repertório, pela independência dos modimos, pela distância do que pode - poderia - render sucesso rápido. Tem dois discos gravados, o segundo deles verdadeiro ato de ousadia para alguém que está surgindo: chama-se Canções de Caymmi, com o repertório totalmente dedicado à obra do grande mestre baiano, lançado no início do ano passado pela gravadora Dubas. O produtor de Jussara, Ronaldo Bastos, diz que é dela a voz brasileira para o século 21 - um comentário que o fez tornar-se seu produtor, e não que nasceu depois de o disco pronto. Com Bethânia, ela vai cantar uma seleção de obras de Caymmi.
VÂNIA ABREU
Após lançar seu terceiro disco,
Seio da Bahia, Vânia Abreu garantiu um lugar entre as melhores novas intérpretes da música moderna. Radicada em São Paulo, Vânia privilegiou, no repertório do mais recente trabalho, compositores também aqui radicados - o paraibano Chico César, o maranhense Zeca Baleiro - e acolheu cantores da cidade - Arnaldo Antunes, Rita Lee. Não é, entretanto, como possa fazer parecer a multiplicidade estilística dos autores, uma cantora eclética - não naquele sentido de quem mistura alhos com bugalhos sem definir seu próprio estilo. O que a graciosa Vânia faz é colher, entre os autores que lhe são próprios, fisicamente ou por pertencerem à mesma geração, as canções que melhor se adaptem à sua delicada visão de mundo. É uma estilista, como demonstrará mais uma vez, ao cantar, com Bethânia,
Onde Andará o meu Amor, de Chico César
BELÔ VELLOSO
Das quatro convidadas de Maria Bethânia, a que tem sotaque mais pop é sua sobrinha Belô Velloso, cantora e compositora que já está no terceiro disco -
MaRés . Porque ela é mais pop, Bethânia fez questão de que cantassem juntas um clássico de outro gênero - a canção
Lua Branca, de Chiquinha Gonzaga. Para mostrar que Belô pode sentir-se bem nos mais diversos tipos de repertório. Mas disso já se sabia, pelo que ela vem apresentando em suas gravações e espetáculos. Como Bethânia queria, ao montar o espetáculo de hoje e amanhã, as intérpretes em cena não são cantoras de axé. São representantes do melhor da música baiana, sem rótulos, como a própria anfitriã vem sendo, desde o início da carreira.
ALCIONE
Maranhense, Alcione chegou a ser professora primária, antes que a música tomasse conta de sua vida - muito embora já cantasse, antes, e houvesse começado a estudar clarineta aos 13 anos - depois trocaria a palheta pelo sopro solar do trompete. A carreira começou, mesmo, no Rio, para onde Alcione se mudou na segunda metade dos anos 60.
Em seu primeiro disco, um compacto, de 1972, Alcione já gravaria Gilberto Gil -
O Sonho Acabou, o grande hino pós-tropicalista. Adiante, viria a ser uma das grandes intérpretes do samba, gênero que combinaria, depois, com a canção romântica que ampliaria seu público e a tornaria uma das mais populares intérpretes do País.
Douglas Portari
Jornal da tarde
19 de outubro, 2000
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