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A nossa canção
 

 À beira da piscina do Copacabana Palace, Maria Bethânia bebe um gole d'água, solta os cabelos para as fotos e sorri para a vida. Está tranqüila, muito tranqüila, nem parecendo a mulher que na noite anterior foi toda emoção diante de milhares de pessoas que vibraram com seu show na noite paulistana. Tranqüila e segura de si. Ser escolhida pelo GLOBO como personagem da música brasileira de 2001 é um prazer que saboreia com naturalidade. 

Um disco de classe, um show vitorioso, a independência artística, o olhar para o futuro que a faz não só mudar de gravadora, mas pensar em projetos que raras cantoras brasileiras ousam, tudo isso justifica a escolha. Melhor do ano? Certamente. Nenhuma novidade nisso, já que seus 36 anos de vida profissional foram marcados pela coerência. Bethânia não abre mão de ser ela mesma. Num certo sentido, é intérprete primeira e única. 

- Sinceramente, nunca penso no que vou fazer - diz a respeito de mais um ano em que tudo deu certo. - Quando me preparo para gravar, não me preocupo com o fato de a canção ser nova ou antiga, daqui ou de fora, se tocará ou não no rádio. Faço apenas o que quero fazer, livre, sem medo. 

A observação vem a propósito de uma pergunta: como terá visto colegas de ofício regravando por regravar, repetindo o repetido, cedendo resignadas à pressão de produtores e gravadoras em CDs que soam tão redundantes? 

- Não acho que regravar seja necessariamente ruim. Veja o disco de Beth Carvalho: só sambas antigos de Nélson Cavaquinho. E nem por isso deixa de ser um disco maravilhoso. Quem canta deve seguir o próprio coração. Se era um desejo de Beth regravar, muito bem. Eu faria o mesmo. 

Registro do show em CD marca a estréia em selo independente 

Pressão de gravadora é coisa que Bethânia realmente não conhece. Ou melhor, se alguma já tentou, se algum produtor pretendeu guiar-lhe o repertório, esbarrou na firmeza de uma geminiana com jeito de taurina (embora sagitariana no ascendente). Em disco seu, só ela decide o que vai entrar. Considera "coisa de americano" essa mania de gravadora ou produtor querer "fazer o cantor". No caso de um show, há mais gente envolvida, mas nem por isso deixa de ser sua a última palavra. O esquema não muda: durante um ano, um ano e meio, Bethânia vai estruturando o show, escolhendo o repertório, selecionando os poemas, elaborando o roteiro e até pensando nos arranjos. Os diretores, de cena e musical, e os demais profissionais da equipe cuidam apenas para fazer do modo que ela quer. 

- Afinal, quem sobe no palco sou eu - justifica. - Um show resulta sempre de um trabalho que mexe com as profundezas da alma da gente. Os meus são assim, do meu jeito, a minha dramaturgia, sem truques, sem artifícios. 

"Maricotinha", como não podia deixar de ser, foi sucesso no Rio. É um show carioca, para o público carioca. O que não impede Bethânia de adaptar alguns momentos aos locais em que se apresentará fora do Rio. Foi assim em São Paulo, onde a resposta do público - emocionada, vibrante, por vezes arrebatada - surpreendeu o mais otimista dos integrantes de sua equipe. O show foi gravado ao longo de três noites do último fim de semana e vai virar novo CD ao vivo, estréia em sua nova gravadora, a independente Biscoito Fino. De malas prontas para breve temporada em Portugal, a estrela não pára. Vai reabrir o Canecão em março em show que será transformado em seu primeiro DVD, último trabalho com a BMG. 

Voltando à questão das regravações, outra pergunta suscitada pelo balanço do ano que termina: é verdade que já não há novas canções, ou novos compositores que as criem, como havia nos tempos em que surgiram Chico, Caetano, Edu, Gil, a mesma geração de Bethânia? Ao categórico não que vem como resposta, ela garantindo que novos e bons compositores surgem todos os dias, acrescente-se a constatação de que 2001 foi excepcionalmente bom para a música instrumental, o que Bethânia acha ótimo. 

- O Brasil é um país de grandes músicos, um país onde há música o tempo todo - atesta. - Recebo em casa todos os discos. As gravadoras, os artistas, os amigos me enviam. Ouço tudo, mas não coleciono. Depois de certo tempo, junto o que recebi e mando para a instituição de caridade na qual Gringo Cardia e Marisa Orth trabalham. 

Ainda a propósito, outra questão: haveria fundamento na tese defendida em livro por velho guitarrista, segundo a qual teria havido uma campanha das multinacionais do disco para que o cancionismo (as canções daquela geração que viu Bethânia surgir) acabasse matando "a grande música instrumental brasileira"? Veja o balanço completo do ano na música 


Por que Maricotinha se destacou em 2001

SEU DISCO: Em muitas canções inéditas ou algumas marcantes recriações de clássicos da MPB, "Maricotinha" reafirmou o rigor estético da cantora. 

SEU SHOW: Intérprete em todos os sentidos, Bethânia sempre soube valorizar sua presença no palco. Em "Maricotinha", dirigida por um velho parceiro, Fauzi Arap, ela esbanja musicalidade e teatralidade. 

SEUS 35 ANOS DE CARREIRA: A independência artística sempre foi uma marca da cantora. Depois da estréia consagradora, em 1965, no politizado espetáculo "Opinião", foi Bethânia quem chamou a atenção de Caetano e Gil para as ingênuas canções de Roberto e Erasmo, sem, no entanto, filiar-se à Tropicália que seus conterrâneos criariam a seguir. Este ano, surpreendendo o mundo do showbiz, trocou uma grande gravadora por um selo independente. 

Em 2002, CD reverenciando Nossa Senhora

Conciliadora, Bethânia não acredita em disputa entre instrumentistas e canção: 

- É claro que não. Vejo até um certo ressentimento nisso. Somos um país de cantores, temos rica tradição cancioneira. Grandes compositores, como Chico, de quem sou gêmea (ele nasceu dois anos menos um dia antes dela) , Caetano, Gil e tantos mais, passaram a cantar suas canções. Quer saber? Isso é conversa para boi dormir. A música instrumental está aí, viva, e os novos compositores continuam surgindo. Em "Maricotinha", gravei Ana Carolina, Totonho Villeroy, Lenine, Herbert Vianna. Ainda não aprendi a cantar Guinga, mas vou aprender. Para surpresa de muitos, um dia fiz um CD só de Roberto Carlos. Ainda acho que quem não compreende a obra dele não compreende o Brasil. 

A mudança de gravadora se deve a dois motivos. O primeiro, o fato de a BMG não a ter procurado com proposta formal para renovar o contrato. 

- Meu contrato é caro, meu disco é caro, tudo meu é caro - ressalta. - E as gravadoras estão sempre atrás de um best-seller, de preferência barato. 

O segundo motivo é que a nova gravadora, a Biscoito Fino, acenou-lhe com possibilidades ilimitadas quanto a projetos fora da linha comercial. Bethânia sente, nas pessoas responsáveis pela nova casa, muita coragem e enorme confiança na música brasileira. Ela garante ter na cabeça cerca de 30 novos projetos pelos quais uma multinacional do disco não se interessaria. Por isso, em nome de sua liberdade, de sua coerência, de suas idéias e da vontade cada vez maior de realizar trabalhos autorais, com a sua cara, com o seu jeito, decidiu mudar. 

O segundo CD pela Biscoito Fino intitula-se "Cânticos, preces, súplicas à Senhora dos Jardins do Céu" e é uma emocionada reverência musical a Nossa Senhora. São cantos religiosos entremeados de versos como os que Waly Salomão fez para Bethânia, entregues com a seguinte explicação: "Foram feitos numa madrugada louca em que fui varado pela sua voz". Há também canções populares, muito antigas, como a versão de Alberto Ribeiro para "Ah! Sweet mystery of life", escrita por Victor Herbert em 1910. 

- Sou de uma família católica, fiel a todas aquelas manifestações religiosas de uma cidade como Santo Amaro - conta. - Estudei em colégio de freiras, participei da cerimônia de entrega das flores à Nossa Senhora da Purificação, fui anjo, conheci o lado deslumbrante de tudo aquilo. Mas nada é mais presente em minha vida que Nossa Senhora. Em tudo que faço, ela está. Ainda sonho com ela, converso com ela. A delicadeza, o sentimento, tudo que vem faltando à Humanidade está em Nossa Senhora. É a grande conhecedora de nossas fraquezas, de nossos limites, de nossas possibilidades. Da mesma forma, nos cultos afros, Oxum é o meu orixá, a divindade da beleza, da doçura, da força. 

O que explica o próximo CD. Dona Canô, a mãe que espalhou música pela vida da família, tentou corrigir um verso que lhe parecia errado num dos hinos cantados pela filha. Provavelmente tinha razão, mas Bethânia ponderou: 

- Mãe, deixa estar como minha memória quer. 

João Máximo
Jornal O Globo
26 de dezembro de 2001