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Desencontros de um encontro

Existem muitos argumentos para justificar o encontro de Gal Costa e Maria Bethânia (nos shows que apresentaram recentemente no Rio e em SP). As duas, baianas, da mesma geração, com Caetano e Gil formaram os Doces Bárbaros e são duas das principais vozes femininas no Brasil a partir dos anos 70. Mesmo com todos esses pontos em comum, o modo como desenvolveram seus estilos (e, conseqüentemente, suas carreiras) basta para dificultar a presença simultânea das divas no palco. 

Formalmente, Bethânia e Gal cantaram juntas, ao vivo, apenas outras duas vezes: em 1964, em Salvador, no show Nós, por Exemplo, que marcou a estréia profissional delas duas e de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé e, em 1976, no espetáculo Doces Bárbaros. Fora isso estiveram juntas, eventualmente, em programas de televisão - ou cantaram duetos, em discos de Maria Bethânia. Sempre nos de Bethânia: "Eu a convido para gravar comigo, mas ela nunca me convidou", diz Bethânia, que não está reclamando, mas achando graça da constatação. 

O show começa com as duas cantando Os Mais Doces Bárbaros (de Caetano Veloso) e Oração à Mãe Menininha (Dorival Caymmi). 

Gal sai do palco e Bethânia canta, por meia hora, músicas de seus dois últimos discos ao vivo (Imitação da Vida e Diamante Verdadeiro). O destaque fica para a forte interpretação de O Ciúme (Caetano Veloso) no grandiloqüente arranjo feito por Jaime Alem. 

Novamente as duas, juntas, cantam Esotérico (de Gilberto Gil). É interessante observar a diferença das vozes, no modo de cantar, em relação à gravação que fizeram em 1976 (no disco ao vivo dos Doces Bárbaros). Sol Negro (mais uma de Caetano) é um dos melhores momentos do show. É, novamente, mais uma reedição dos duetos já antes protagonizados pela dupla - este, gravado no disco de estréia de Bethânia de 1965, com a participação de Maria da Graça, que ainda não era Gal. 

Em 1965, quando cantaram a música pela primeira vez ("Na minha voz/Trago a noite e o mar/O meu canto é a luz/De um sol negro", cantava Bethânia, o grave rasgando noite e mar; Gal Costa, ainda conhecida como Maria da Graça, respondia: "Valha, Nossa Senhora/Há quanto tempo ele foi-se embora/Foi pra bem longe, para além do mar/Para além dos braços de Iemanjá/Adeus"), obedeciam a uma disposição de palco determinada pelo autor: uma em cada extremo da cena, Gal de preto, Bethânia de branco. A disposição foi mantida e Gal continua de preto. Bethânia trocou o branco pelo prateado. 

As músicas que Gal Costa canta, no seu momento solo, são predominantemente as de seu último disco (um tributo a Tom Jobim). Inevitável, por ser evidente, a comparação de sua desenvoltura forçada com a teatralidade precisamente ensaiada de Bethânia no palco. Os principais destaques na apresentação de Gal são sua interpretação perfeita em Tema de Amor de Gabriela (Tom) e Por Causa de Você (Tom e Dolores Duran). Nesta última a perfeição da intérprete é acompanhada pelo belo piano de Cristovam Bastos. 

É na parte final que o show pode ser melhor compreendido. Agora as cantoras se revezam a cada música, enquanto uma canta, a outra observa. Entre outras músicas, Gal canta Folhetim e Bethânia, Olhos nos Olhos

Nas duas composições de Chico Buarque, pode-se imaginar a metáfora que elucida em parte o aparente desconforto do encontro para as intérpretes. A mulher de Folhetim é prática (longe de insinuar que Gal é daquelas que só dizem sim), é técnica. A mulher de Olhos nos Olhos é passional, de emoções teatrais. Dificilmente transcorreria sem alguma tensão o encontro de uma voz que sempre primou por sua técnica com outra que construiu sua música a partir do teatro. Gal se espelha em João Gilberto, Bethânia é Dalva de Oliveira. 

Ao cantarem juntas, transparece o 'medo' de uma 'atropelar' o canto da outra. Não se sabe se é apenas por falta de afinidade de estilos ou se também por escassez de ensaios. Certa porém é a diferença do desempenho (para melhor) de ambas quando estão sozinhas no palco. No encontro histórico, imperdível, sobram desencontros.

10/03/00