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Ao completar 50 anos de idade e lançar o disco “Âmbar”, Maria Bethânia concedeu entrevista ao jornalista Roberto D’avila, falando de todos os aspectos da sua vida. Veja a seguir os melhores momentos:
Como você tem sentido a passagem do tempo?
O tempo é um mestre extraordinário. Eu gosto mais, não só de mim, mas da vida, por agora. Comecei a trabalhar muito cedo, aos 17 anos, e sofri muito por ser um sucesso nacional e a referência de todo um movimento ao mesmo tempo em que carregava comigo toda a meninice que o interior propicia as pessoas.
Quanto mais o tempo passa, eu me sinto mais serena e contemplativa. Me encontro cada vez mais apaixonada pela vida. Hoje, aos 50 anos, sinto que é muito mais confortável viver comigo mesma. O tempo apara todas as arestas e dá o acabamento necessário a tudo.
E esses fios branquinhos que estão nascendo no cabelo?
Foram 50 anos para que eles chegassem até aqui, sou em quem vai tira-los? Tenho um orgulho danado de todos eles.
E como funciona essa placidez adquirida com o tempo quando você está apaixonada?
Eu vivo muito apaixonada. Pode ser por uma pessoa, um espetáculo ou por uma idéia. Preciso de algo que me dê ânimo e me incendeie.
A serenidade e a paixão podem parecer duas coisas divergentes, mas com o passar do tempo você começa a aprender como juntar as duas coisas.
E sexo, combina com placidez?
Com o tempo, você perde aquela pressa e ansiedade que se tem na juventude, fica mais pra aquele estilo de vida baiano onde tudo tem de ser curtido sem ânsia. Fica bem melhor.
Você acha que, em decorrência das tecnologias, o mundo tende a perder o romantismo?
Eu sinto o homem cada vez mais solitário, isso se deve em parte aos avanços tecnológicos. As pessoas tendem a se comunicar por e-mail, nem é mais pelo telefone. E isso me preocupa, pois o homem não nasceu para ser só. Sozinho ele começa a ficar amargo, a se sentir Deus, começa a errar. A necessidade da proximidade, do calor e do toque do outro são inerentes ao homem. Eu preciso do outro e espero precisar sempre.
Você costuma sair muito pouco?
Quando cheguei ao Rio de Janeiro eu saía demais, conheci a cidade pelo avesso. Mas isso foi na juventude, hoje eu quase que não saio de casa. Às vezes gosto de passear pelas ruas do Rio de Janeiro, por Paris ou Santo Amaro. E sempre que posso eu estou no mar, que é uma adoração que eu tenho. Preciso de muita água ao meu redor.
No show Âmbar você se volta muito a Fernando Pessoa.
Ele é o poeta que mais me traduz, assim como o Chico e o Caetano na composição. Essa coisa da multiplicidade de personalidades e de estilos literários que há nos heterônimos do Fernando me fascina, pois nós também somos muitas pessoas ao mesmo tempo.
De onde vem essa ligação profunda com o poeta?
A primeira vez que recitei Pessoa foi em Rosa dos Ventos, em 1971. Mas, aos 13 anos, li um poema e fiquei completamente apaixonada. Quase 15 anos depois, quando Fauzi Arap me apresentou a possibilidade de incluí-lo em
Rosa dos Ventos, imediatamente compreendi a paixão que me arrebatara e pude dimensionar a importância da obra de Pessoa no meu trabalho. Tanto que ele foi o poeta que escolhi para o show em que comemorei meus 50 anos de vida, Âmbar, Imitação da Vida.
O que há no poeta de tão apaixonante?
Como Chico Buarque quando compõe, Pessoa tem um elemento poético deslumbrante: a sinceridade. Seus poemas parecem canções.
Qual
Pessoa lhe fala mais diretamente ao coração?
Há algo nos heterônimos que me fascina. Ele é geminiano como eu e cada heterônimo é uma expressão perfeita, fechada em si. São tantas personalidades, e todas tão lúcidas... O Caeiro é uma paixão... Mas acho que o Álvaro de Campos é o que mais me pega.
Como foi forte o momento da cultura brasileira no qual você estreou, não é?
Na hora da dor, a criação artística vem explosiva. A Bahia fervilhava com sua Escolha de Teatro, para onde vinham pessoas de todo o mundo à procura de um trabalho enriquecedor. O Glauber Rocha surgia no cinema, a arquitetura da Bahia começava a ser destaque... Não falo isso por saudosismo, é que nosso país tem memória curta e é necessário que a gente reconheça nossos talentos.Temos coisas muito boas hoje, mas podemos ter outras ainda muito melhores.
Talvez essa superficialidade cultural tenha vindo com a banalização que a TV trouxe a nossa cultura.
A televisão não tem o rigor do teatro ou do cinema. Tudo nela é muito rápido e fulgaz. É como o jornal, que num dia é notícia e no outro já virou papel de enrolar peixe na feira. Mas o produzir Tv não pode ser pensado assim, pois esse é o único meio que invade a casa de todos os seres desse país.
Como você fez para manter 30 anos de carreira num país tão cheio de altos e baixos como o Brasil?
O palco sempre me salva. Desde menina eu sabia que iria trabalhar no palco, fosse como atriz, cantora, dançarina ou trapezista. Sempre me atraiu muito a possibilidade de atuar correndo um certo perigo, e o palco se tornou para minha carreira de cantora a rede de apoio que a trapezista tem no picadeiro.
A verdade é a minha essência e eu nuca subi ao palco pra mentir. A vida pode até ter mentiras, mas no palco tudo é sempre real.
De onde você acha que vem a voz?
É um mistério. Ela surge de cordas vocais mais finas que um fio de cabelo e passam a ter uma força tão grande; força essa presente não só na sua emissão, mas no poder que a música tem no mundo. È a arte que tem maior poder de penetração.
Eu gosto das cantoras que tem o lado de intérprete mais aguçado, cujas vozes parecem vir das tripas, como Nana Caymmi, Edith Piaf e Billie Holliday. Costumo dizer que a voz mora em mim, mas não é minha, ela pertence à humanidade. É algo muito poderoso que você não comanda.
E como era ter essa voz grave no seu tempo de menina?
Quando era estudante, eu tinha que me sentar no final da fila pois tudo era por ordem alfabética. Eu gelava a cada vez que pensava ter que falar o “Presente” lá do fundo. Então quando chegava a minha ora eu apenas levantava o dedo. “Não sabe falar não?”, ouvi isso muitas vezes.
Então um dia eu pensei “Por que isso? Minha voz não é feia, ela é apenas diferente.” Depois disso eu passei a esperar pelo momento de dizer “Presente” e ouvir o som da minha voz. A partir daí pararam todas aquelas brincadeiras dos meninos do colégio sobre o tom grave da minha voz.
Você costuma cantar em casa?
Quando estou preparando um novo trabalho eu costumo apenas cantarolar as canções pra ver se cria um vínculo entre mim e elas. De uma maneira quase orgânica as canções passam a fazer parte de mim. Mas não sou de cantar ao violão nem de ouvir muito os meus próprios discos.
Você e Caetano são quase uma só pessoa!
Na época em que fizemos o show juntos nós tínhamos cabelo igual, nos vestíamos de forma semelhante e temos uma formação corporal bem parecida, que a gente chama de estilo Velloso.
Mas somos muito diferentes. Ele gosta muito de brigar publicamente Eu falo tudo o que penso a qualquer um, mas tem que ser pessoalmente.
Você nunca pensou em ter filhos?
Quando tinha 18 anos eu queria demais ter um filho, e aos 25 eu estava muito confusa por não conseguir trabalhar direito essa questão. Foi quando, igual ao dia em que descobri que gostava da minha voz, decidi que não ia mais ficar lutando contra isso.
Da essência feminina, Deus me deu a voz e ele fez muito bem, pois eu sou extremamente ciumenta e possessiva nas minhas relações. Fico enciumada com um simples vento que vem e toca o perfume do seu cabelo.
Como é a sua religiosidade?
Como meu espírito sou muito livre, eu preciso da fé porque ela cria limites.Sou de família católica e tive toda a formação que a igreja requer, do batismo ao crisma. Ainda hoje tenho uma forte ligação com o catolicismo, principalmente com Nossa Senhora. Adulta, resolvi me aproximar do Candomblé devido à exuberância dos seus rituais e pelo fato da natureza ser algo que faz parte da sua crença. É comovente e confortável poder lidar com um Deus que faz parte de árvores e folhas que estão próximas a mim. Preciso disso.
Como você passou pela época das drogas?
Nos anos 60 eu convivi num ambiente em que se fumava muita maconha, só que aquele cheiro me enjoava muito. Tenho uma percepção muito sensível, em todos os sentidos. Eu dizia: “Gente, não fuma perto de mim que eu passo mal”.
Anos depois veio a moda da cocaína. Eu cheirei uma vez e fiquei apavorada, louca que passasse logo aquele efeito. Achava horrível ver aquelas pessoas na ilusão de serem algo que não correspondia à realidade.
Eu tenho muito receio da química. Fui criada na homeopatia e reluto muito em tomar um simples lexotan nos períodos em que estou mais tensa. Prefiro sempre recorrer a chazinhos naturais.
Roberto
D'avilla
21/02/98
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