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Bethânia mostra em SP 'A Força Que Nunca Seca' 

O mar da Bahia, os interiores brasileiros, a religiosidade, as canções românticas inscritas na memória do País, a dor dos oprimidos, emblematicamente traduzida por versos do "Navio Negreiro", de Castro Alves. O Brasil atravessa o palco em "A Força Que nunca Seca", em cartaz no Palace, em São Paulo, encarnado por Maria Bethânia, sua fiel intérprete, sob direção, mais uma vez, de Fauzi Arap, seu companheiro de tantos outros espetáculos inesquecíveis, como "Rosa dos Ventos", "Drama" e, mais recentemente, "Imitação da Vida", entre outros. 

São canções de Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Villa-Lobos, Catulo da Paixão Cearense, Edu Lobo, Chico Buarque, Roberto e Erasmo Carlos, Chico César, que servem para expressar a alma brasileira e sua esperança, sua indignação, seu afeto. 

"O repertório expressa a visão serena que Bethânia tem sobre a triste realidade que nos cerca, mas, para além de uma possível indignação, sabe, com contida sabedoria, lembrar toda a grandeza de nosso povo, cristalizada em nossas canções", diz Fauzi Arap. 

"Alguns dos clássicos escolhidos, como "Luar do Sertão" e "Romaria" , exibem a força eterna que só a arte que toca o essencial é capaz de conter", afirma. "E a composição que dá nome ao disco e ao show, de Chico César e Vanessa Da Mata, é uma pequena obra-prima, que já nasce clássica em seu rigor e elegância para falar de um mesmo velho problema brasileiro que, para nossa vergonha, continua não resolvido." O cenário de Felippe Crescenti, sóbrio e despojado, com palco inclinado a pedido de Bethânia, alia-se à suave iluminação de Paulo César Medeiros para dar mais destaque à força das canções. 

"O que esse show tem de mais específico, é que ele é mais épico e menos dramático, no sentido de espelhar mais a visão de um brasileiro abstrato em geral, por meio das canções, do que uma visão pessoal", explica Arap, que estruturou o espetáculo depois de várias reuniões com a cantora e o definiu já nos primeiros ensaios, num trabalho sempre conjunto com ela que obedece mais à intuição e a uma cumplicidade, que vem de mais de 30 anos de amizade, do que a um esquema rígido. 

"A identificação entre nós permitiu que eu fosse capaz de sugerir músicas reveladoras de sua essência, como Doce Mistério da Vida e Gita, que parecem ter sido compostas para ela", conta Arap, que começou a criar shows com Bethânia em 1967. "Tive a felicidade de encontrá-la numa fase de transição e assistir a muitos de seus shows improvisados em pequenos teatros, onde ela se dirigia de forma deliciosa", lembra. "Ela não fazia dois shows iguais; muito da riqueza cênica que testemunhei serviu de base para as minhas chamadas 'direções'", revela. 

Os quatro elementos 

A estruturação do repertório e a concepção da dramaturgia dos espetáculos de Bethânia, desde "Rosa dos Ventos", sempre passam pela harmonia entre os quatro elementos, conta Arap.

Assim, "A Força Que nunca Seca" não poderia ser diferente. Nele estão o mar, o rio, as emoções (a água); o sertão, a paisagem do interior do Brasil (terra); as idéias políticas e religiosas (ar) e a paixão (fogo), compondo um painel que tem sua síntese na parte final do show. 

"Tento estruturar no palco as verdades que ela quer dizer por meio das canções", afirma o diretor, que sugeriu algumas músicas para compor e alinhavar o repertório, como "Maninha" e "Roda Viva" e "Suíte dos Pescadores" . 

 "Assombrações" e "O Tempo e o Rio" , do programa de "Rosa dos Ventos", e "Encouraçado" e "Resposta" retiradas do "Cena Muda", relembram antigos espetáculos da cantora, mas se integram ao roteiro atual, que também inclui composições como "Gema" , com que ela abre o show, depois da instrumental "Senhora do Vento Norte" (do maestro Jaime Alem), "As Iabás" (domínio público) e "Iansã" - vale ressaltar aqui que tanto o disco, dedicado à Mãe Cleusa, como o show retomam os temas afros do candomblé que Bethânia vinha deixando de lado. Outro destaque do repertório é "Cacilda", feita para a peça de José Celso Martinez Corrêa, "uma jóia que parece composta para a voz e a presença de Bethânia", no dizer de Arap. 

O bloco das canções românticas é heterogêneo e traz músicas como "Emoções", "Costumes" , "Como Vai Você" e até o hit "É o Amor" , de apelo mais popular, ao lado de obras de harmonia mais refinada como "Fala Baixinho" e "Olhos nos Olhos". 

A cantora hoje mais lembrada por seu repertório romântico, apesar de nunca ter deixado de lado sua voz de protesto, fecha o show com "A Força Que nunca Seca", "Carcará" , "Marginália" , "Roda Viva", "Maninha", "Um Índio" e "Vila do Adeus" . 

"Sempre fiel a si mesma e às verdades de sua alma, ela é única", observa Arap. "Apesar da versatilidade de que é capaz, Bethânia preferiu esconder a atriz que traz em si num único personagem - a cantora - e desde o início revelou-se a cantora guerreira, capaz de incendiar as platéias com sua paixão", continua. "Já a compararam a um orixá e um amigo que nunca a tinha visto em cena me disse depois da primeira vez que sua força e presença lembravam a do papa!" E conclui, sem esconder sua admiração: "Sua autoridade vem da coragem de ser inteira, por mais que lhe dôa, e de não temer seguir sua intuição, mesmo quando contraria todos os modismos e a pressão do que é política ou esteticamente correto, seja em que tempo for. 

Diário on line
10/06/1999