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:: Crítica Musical

Bethânia faz melhor papel em "Imitação da Vida"
 

 
Em meados de 1965, a jovem atriz amadora de Santo Amaro da Puirificação, Bahia, estava ensaiando uma peça no teatro da cidade quando atendeu um telefonema do Rio. A produção do Show Opinião convidava a moça para substituir a cantora Nara Leão, estrela do espetáculo. Ela topou na hora. Afinal, durante o ano anterior, havia cantado em diversos espetáculos em Salvador, organizados por seu irmão, Caetano Veloso, e o amigo, Gilberto Gil. Interpretar uma cantora foi o melhor papel de sua vida. 

Tinha 19 anos quando subiu no palco do Opinião para cantar "Carcará", baião de protesto de João do Vale. A música lhe rendeu a fama instantânea. Levou o papel de disco a disco, de show a show, até criar em torno de si uma legião de devotos. Hoje, aos 50 anos, Maria Bethânia é uma interpretação que chega ao cume.

Foram precisos 32 anos no mesmo papel para que ela se transformasse em uma cantora de verdade, com voz, afinação, expressão e austeridade. O CD duplo "Imitação da Vida" (EMI), recém-lançado, confirma a transfiguração definitiva. As duas dezenas de canções entremeadas a poemas de Fernando Pessoa foram gravadas ao vivo durante o show "Âmbar" no Palace, em São Paulo, no mês de dezembro de 1996. O repertório segue o do CD "Ãmbar", lançado à época do show. São canções de amor de Chico Buarque ("Terezinha", "Rosa dos Ventos", "Sonho Impossível" e "Beatriz"), Silvio Caldas e Orestes Barbosa ("Chão de Estrelas"), Gilberto Gil ("Viramundo"), Arnaldo Antnes ("Alegria" e "Lua Vermelha", esta em parceria com Carlinhos Brown) e Chico César ("Onde Estará o Meu Amor" e "Invocação"), entre outros. A diferença em relação ao CD anterior está na inclusão dos poemas, que amarravam o espetáculo, dirigido por Fauzi Arap, e a interpretação superior de Bethânia, tradicionalmente melhor ao vivo do que em estúdio. 

A banda, comandada pelo arranjador e maestro Jaime Além, é de primeiro extrato: um noneto com bateria, percussão, violões, guitarras, piano, teclado e cordas. Os arranjos são discretos. Constituem meros acompanhamentos acústicos para o desempenho da cantora. O aspecto dramático e lírico é ressaltado pela solução de continuidade entre as faixas, formando um conjunto harmonioso, ainda que criptográfico. 

Uma das grandes virtudes de Bethânia é se repetir, progredindo em cada circunvolução. Ela retoma os temas antigos, as canções e as questões que a preocuparam anteriormente, trazendo-as à tona num constante autoquestionamento. Não há, neste aspecto, nenhuma outra cantora brasileira que tenha assumido tão claramente essa postura intelectual. Bethânia não é nunca fácil, nem mesmo quando apela para aquilo que muitos chamam de brega ou kitsch. Lançou um CD de vanguarda em 1987 para logo depois praticar a canção mais simples. As abordagens que fez do cancioneiro de Roberto Carlos (compositor romântico que reveza o maravilhoso com o teratológico, diga-se de passagem), por exemplo, são peças de expertise em canção. Bethânia define a forma definitiva de uma composição e a recoloca no ciclo criativo do próprio compositor, como um desafio. 

Em "Imitação da Vida" , ela retoma um arcabouço de show que desenvolveu em 1974 no espetáculo "Rosa dos Ventos". Naquela época, "Rosa dos Ventos" serviu para alterar os padrões de qualidade dos shows brasileiros. Bethânia cantava, dançava e declamava poemas de Fernando Pessoa, acompanhada de um grupo musical de qualidade e uma concepção teatral fechada. Só que 23 anos atrás ela ainda era musicalmente imatura. Desafinava e o fazia até para balançar os críticos, que viam nela qualidades dramáticas, mas pouca musicalidade. Com o tempo, ela se despiu dos exageros expressionistas e aprimorou a voz, depurando a enunciação da melodia. Em 1974, também o "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa, não havia sido publicado. 

Bethânia popularizou o poeta com seus escritos mais famosos. Operava pela criptografia, enviando mensagens cifradas para os bons entendores. A edição definitiva do "Livro" aconteceu em 1983. Bethânia resolveu incluir trechos do livro no novo show e no álbum, associando-os com os heterônimos Alvaro de Campos e Ricardo Reis. Com isso, as citações pessoanas ganharam novas tonalidades, já que o conteúdo do "Livro do Desassossego" é bem mais pessimista e depressivo do que os ensinamentos dos outros heterônimos. 

O resultado é um trabalho maduro de deslocamento dos sentidos dos poemas originais pela junção com músicas brasileiras. Pode parecer uma atitude diluente por parte da artista, criar ambientes semânticos misteriosos a partir de poemas que sugeram canções e vice-versa. Nada em Bethânia, porém, é tão simples assim. Ela parece querer trazer à tona mais uma vez o talento dramático, como que para afirmar a supremacia do canto sobre a fala. A declamação dos poemas soa monocórdica, pobre, ressaltando assim o arcabouço dos versos. Muda a pessoa do masculino para o feminino e afirma a própria estética pela citação. Como esta: "Eu tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois sendo mais do que uma espectadora de mim mesma, tenho que ter o melhor espetáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas suipostas, palco falso, cenário antigo, e sonho criando entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis". Logo vem uma canção, abordada com severidade, com a expressão domada, o vibrato no ponto certo, as notas escandidas à perfeição. 

"Imitação da Vida" é uma carta de amor resignado. Bethânia sabe muito mais do que o Álvaro de Campos que ela cita que "todas as cartas de amor são ridículas". E nada como uma dose de distanciamento para anular o ridículo e desautomatizar as cartas de amor uma vez mais. Nos dois discos, o barulho dos aplausos dá a entender que a introspecção pode ser encenada em público sem perder o viço original. Se Maria Bethânia ainda é um papel, então está tão bem representado que engana todo mundo. 

Luís Antônio Giron