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Maria Bethânia canta para sua personagem, Maria Bethânia: "Brilhante, ê, de noite dentro da mata, na escuridão, luz exata, vejo você, divina, ê" - são versos de Caetano Veloso, do batuque
Gema, primeira faixa cantada do mais novo disco de Bethânia, o duplo Diamante Verdadeiro.
Ou, melhor: Maria Bethânia, personagem da primeira linha da música brasileira, canta para a música brasileira, de que faz ofício e razão de ser: "Brilhante, ê, de noite dentro da mata, na escuridão, luz exata, vejo você, divina, ê."
A duplicidade de sentido é certamente proposital. E Maria Bethânia tem o direito de confundir sua personagem de palco com a música brasileira. Como quase ninguém, ela luta por essa música, suas inflexões, sua qualidade em múltiplas formas.
O disco Diamante Verdadeiro faz uma compilação da música brasileira, o melhor dela, segundo Bethânia. E o melhor da música brasileira passou pela voz de Bethânia, nos últimos 35 anos - desde que ela estreou para o grande público, em 1965, substituindo Nara Leão no show
Opinião, em que dividia o palco com o maranhense João do Vale e o carioca Zé Kéti.
Opinião tinha uma narrativa muito típica da época. Tinha, dizia-se então, "conteúdo", "sentido", "mensagem". Confrontava o nordestino migrante, o negro do morro do Rio, a moça de classe média. Nara Leão viveu à maravilha a moça de classe média. Bethânia começou ali a construir seu personagem, e, para tanto, embaralhou os personagens da cena. Consagrou-se não pela imagem bem-comportada da moça da zona sul , mas pelo vigor com que encarnou o pássaro que pega, mata e come, o carcará do baião de João do Vale.
E assim seguiu, subvertendo as questões de gosto, reinventando os papéis. Sua força no palco é ilimitada e insuperável, e ela sabe disso. Considera-se mais uma intérprete - uma atriz - do que uma cantora. O bicho de palco. Um ser da cena.
Maria Bethânia deu qualidade a uma brilhante tradição de discos gravados ao vivo, inaugurada com o memorável
Recital da Boîte Barroco, de 1968.
Diamante Verdadeiro é seu 13º registro ao vivo. O título sai de um choro de Caetano Veloso, gravado por ela mesma, no disco Álibi, de 1978. A letra diz assim:
"Enquanto eu invento e desinvento moda, minha roupa, minha roda, brinco entre o que deve e o que não deve
ser" - e enfatiza: "Eu sou primeiro, eu sou mais leve, eu sou mais
eu." Não há muita gente que possa cantar essas palavras, dizendo irretocáveis verdades.
Diamante Verdadeiro foi gravado em agosto, durante a temporada carioca de três semanas do show
A Força Que nunca Seca. O show vai, naturalmente, continuar em cartaz, por mais um ano, revigorado pelo lançamento do disco. Que contém os 27 números do espetáculo (alguns números agrupam mais de uma canção, eventualmente textos). De Castro Alves, Bethânia escolheu trechos do
Navio Negreiro. Seguindo orientação do irmão Caetano Veloso, Maria Bethânia faz soar, sob as palavras, o batuque dos tambores do Pelourinho - a Bahia imutável em seu esplendor e miséria.
Quem responde por esse e por todos os outros arranjos do show e do disco é o violonista Jaime Álem, parceiro - cúmplice estético - de Maria Bethânia há quase 30 anos. É dele a faixa, instrumental, que abre o disco,
Senhora do Vento Norte. A música dá partida à viagem que envolve o público numa breve história da música brasileira, história de Maria Bethânia.
E de fato: ela foi buscar as canções de mar de Dorival Caymmi, as interrogações do tempo de Edu Lobo e Capinam, o desespero esperançoso de Chico Buarque, a luz do sertão, o trem que corta os interiores, o canto da tempestade, a voz dos santos dos terreiros de umbanda, a poesia dura e terna de Tite de Lemos ("Encouraçado nos meu agasalhos/ Nessa vaguíssima avenida/ Nessa lentíssima espreguiçadeira/ No seio dessa tarde confortável", versos para a canção
Encouraçado, de Sueli Costa), a ternura de Pixinguinha, a saudade, as saudades, as saudades.
Carreira
A faixa que encerra o disco é Na Carreira, de Edu Lobo e Chico Buarque, música menos conhecida do roteiro do balé
O Grande Circo Místico. É uma composição que celebra o prazer do palco, a saudade dos portos, a vida do artista.
O Grande Circo Místico encerrava-se (o espetáculo, como o disco) como
Na Carreria. A música virou tabu. Ninguém mais a cantou, desde o lançamento da trilha do balé, em 1980.
No entanto, Na Carreira é a música para encerrar um espetáculo de música. Joga com a duplicidade do título - o substantivo carreira, como exercício profissional, depois retomado com o sendo de pressa, necessidade de partir. "Toda alma de artista quer partir", diz um dos versos escritos por Chico
Buarque. Diamante Verdadeiro é um disco na primeira pessoa, como todos os de Bethânia, com os riscos que isso implica. Divide-se em três atos, como ela quer - um que fala da natureza, o mar, o sertão, outro que trata do amor, mais um que politiza as questões, denuncia horrores, assusta-se com o mundo - mas segue em frente. O sertão de Bethânia tem tanto o
Trenzinho do Caipira, versos de Ferreira Gullar para a obra de Villa-Lobos, quanto os versos delicados de Manuel Bandeira para a toada
Azulão, de Jayme Ovalle, quanto a cantiga É o Amor, de Zezé di Camargo, representante emblemática da pior música brasileira dos anos 90.
Bethânia não recebe ordens e segue sua intuição. Não acata o que dizem - como ela os chama - os donos da verdade da música brasileira. Acha
É o Amor bonito - e consegue transformar a canção, em cena, num momento de verdades. Mas, se passa sobre a força simbólica da música, despe-a de suas idiossincrasias para deixá-la apenas como é, uma cantiga, evidencia, talvez sem querer, que é apenas isso, uma cantiga entre muitas.
Destoa do repertório, mas não o macula. O melhor que soou da música brasileira, neste século, foi revisto por Bethânia, em sua longa e honrosa, honestíssima carreira. Ela é uma autoridade e como tal se comporta.
Diamante Verdadeiro, mais uma vez, afirma suas convicções. É um disco deslumbrante, registro de um dos momentos mais emocionantes do palco brasileiro. É a trilha sonora de um mundo melhor, que todos queremos. MAURO DIAS
19 de novembro de 1999
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