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Doces Bárbaros - Enredo da Mangueira em 1994

A Mangueira é o Flamengo do samba. Ou o Corinthians, como queira. A escola já entra este ano na avenida com 1 a 0 a seu favor, graças ao enredo que homenageia Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. "Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu" é o refrão mais tocado no Rio e coloca a Mangueira como favorita ao título que persegue há sete anos. Mas o samba, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. 

O carnavalesco Ilvamar Magalhães, 48, é quem está por trás da caixinha da Mangueira. Carioca do Engenho de Dentro, no subúrbio, Ilvamar trabalha 11 horas por dia nos dez carros alegóricos e 30 tipos diferentes de fantasias da Mangueira. Começou a criar o desfile de 94 em agosto do ano passado, desenhando a mão livre 150 peças. 

Antes de ser carnavalesco, Ilvamar Magalhães foi pianista por dez anos das noites cariocas. A música não só lhe deu sustento como o enredo para três carnavais. Roberto Carlos, Luís Peixoto (parceiro de Ary Barroso) e Tom Jobim já foram temas desenvolvidos pelo carnavalesco na Unidos do Cabuçu, Vila Isabel e Mangueira, respectivamente. A união música e Bahia, para mangueirenses supersticiosos, dá um cheiro de já ganhou ao Carnaval deste ano. 

A escola tem um retrospecto de boas colocações em anos que homenageia artistas ou baianos. Foi assim nos enredos sobre Braguinha, Dorival Caymmi e Carlos Drummond de Andrade, quando foi campeã em 84, 86 e 87.Houve ainda um primeiro lugar com o tema "Lendas do Abaeté" em 73 e um segundo lugar com "Exaltação à Bahia", em 63. Este ano, os homenageados da Mangueira reúnem, multiplicado por quatro, os dois predicados: são artistas e baianos. Não foi à toa que Caetano Veloso escreveu que a "Mangueira é onde o Rio é mais baiano", em composição recém-criada e apresentada no show dos Doces Bárbaros em 15 de janeiro. 

Ilvamar afirma que para retratar a carreira dos Doces Bárbaros na avenida desenhou "fantasias e alegorias melodiosas". O quê? "Os desenhos tem traços e curvas mais harmônicos", tenta explicar o carnavalesco.Caetano, Gil, Bethânia e Gal estarão em quatros carros alegóricos separados. "Se os colocasse todos juntos, num carro só, no fim do desfile, ninguém prestaria atenção na escola, só na expectativa de vê-los", diz Ilvamar. "Preferi manter quatro momentos distintos de apoteose". 

Cada um dos quatro, terá cerca de dez músicas citadas no enredo. Para Bethânia, por exemplo, "Carcará" e "Explode Coração" Gil, "Aquele Abraço", "Expresso 2222" Gal, "Chuva de Prata" Caetano, "Sampa" e "Leãozinho".Mas se alguém espera citação à crítica social ácida de Gil e Caetano em "Haiti" é melhor esquecer. "Escolhi momentos de maior facilidade de leitura", justifica o carnavalesco. Bom, então lá estará o Havaí de "Menino do Rio", certo? "Claro, o Rio tem um pouco dele". 

Exigência

Os quatros homenageados da Mangueira com certeza são bárbaros, mas nem sempre doces. Na Estação Primeira (espécie de prenome da escola oriundo dos tempos em que a Mangueira era a primeira estação de trem depois da Central do Brasil), a fofoca é que Maria Bethânia é sinônimo de exigência (para os mais elegantes) ou encrenca (para os menos sutis). 
Como exemplo, afirmam que Bethânia não fala com Gilberto Gil e que, por esse motivo, quase recusou o convite para ser tema de enredo este ano. A desavença de Bethânia com Gil teria origem numa entrevista do compositor classificando a irmã de Caetano como conservadora. Ela não gostou e cortou relações. Carcará, pega, mata e come.Bethânia é também a causa da última dor-de-cabeça de Ilvamar Magalhães. O carnavalesco liberou os quatro homenageados para se vestirem com os estilistas que quiserem, desde que a roupa fosse branca. "Branco é coisa de baiano", argumentou ele. Mas Bethânia quer desfilar de verde e rosa e questiona com lógica: "Ninguém pode ser proibido de sair de verde e rosa na Mangueira". 

Ilvamar concorda. Mas afirma que o carro que Bethânia sairá como destaque é prata e azul-profundo, simbolizando o brilho da estrela. "Quis usar preto, mas ela supersticiosa, não deixou", lamenta. Para Ilvamar, Bethânia de verde e rosa estaria fora de sintonia com o carro alegórico. Mas isso tudo é besteira, fofoca de barracão.Por essas e outras -como as superstições de Roberto Carlos em 87- que Ilvamar diz que não gosta de enredos que homenageiam personalidades. "Prefiro temas que eu possa viajar mais. Essas homenagens obrigam você a ser muito óbvio", declara. Pois pergunte então o que representará a concretude dos versos de "Sampa" no desfile da Mangueira e terá a seguinte resposta: "Uns prédios altos, essas coisas assim", afirma Ilvamar. 

Folha de São Paulo
Plínio Fraga
19 de Fevereiro, 1994

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