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Bethânia, ou a majestade em coletiva  
 

Na calçada oposta da rua em que caminha Gal Costa, quem passa é Maria Bethânia. Entender as doces bárbaras nunca foi tão fácil. O que uma diz é o inverso do que a outra pensa. Gal lança disco novo com clássicos velhos, resmunga dos compositores e não se importa em aparecer na televisão dando bicotinhas no ex-senador Antônio Carlos Magalhães. Bethânia quer provocar surpresa, não cansa de elogiar letristas debutantes e tem pavor das câmeras de tevê. 

Óculos de sol, cabeleira solta, Maria Bethânia não disfarça o susto ao entrar no salão vermelho do Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. "Nossa senhora, quanta gente!" Eram 23 jornalistas para uma coletiva, concedida na tarde de terça-feira. 

A intérprete lança o disco Maricotinha, comemora 35 anos de carreira (completados, na verdade, no ano passado) e aproveita para fazer algo que só faz quanto tem um bom motivo: falar. 

Conforto para ACM 

Nas antíteses entre Gal e Bethânia, uma ressalva. A irmã de Caetano Veloso não beijou ACM em público como fez Gal Costa. Mas, como contou, não deixou de apoiá-lo. Na briga de foices do Senado, à beira da histórica renúncia do político baiano, Bethânia mandou-lhe um telegrama. Afinal, como ela diz, ACM "é um fã que não perde meus shows". 

"Conheço o senador há muitos anos. Ele é amigo da minha família. E é meu fã desde que eu estreei. Não tem um espetáculo que eu faça em que ele não esteja. Mandei um telegrama para ele." O conteúdo? Palavras de conforto. 

Entrevistas coletivas com Bethânia são curiosas. À frente se posicionam jornalistas-fãs,aqueles que se derretem em perguntas do tipo "como manter essa bela voz?" Ao fundo ficam jornalistas-sombras, aqueles que, por alguma razão, nunca perguntam nada. 

Frente a uma "platéia" dividida entre o deslumbramento e a apatia, Bethânia fica à vontade. E começa contrariando o que diz Gal Costa: "Não concordo que não existam boas composições novas. Acho que é porque ouço de tudo, porque tenho um ouvido mais aberto. Nunca fui nem tropicalista. Gosto muito do que tem chegado." 

Maricotinha, de Dorival Caymmi, é nome do disco e uma das três regravações que aparecem. As outras são A Moça do Sonho, de Chico Buarque e Edu Lobo, e Primavera, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. No mais, são canções enviadas por fornecedores habituais como Lenine, Chico César, Roberto Mendes, Adriana Calcanhoto e Vanessa da Mata. E há outras de Herbert Viana, Renato Teixeira, Ana Carolina e Gilberto Gil. 

Não há, contudo, receio da intérprete em se repetir na escolha dos criadores. "Ouço tudo o que mandam. Se essas pessoas que sempre me mandam canções mandarem canções como sempre lindas, elas serão sempre gravadas. O que me irrita é quando recebo material de gente que quer compor para me agradar." 

Tudo, menos tevê 

A música Imagens, que havia sido interpretada por Sueli Costa, escolhida para estar no disco de Bethânia, teve de ser retirada por problemas jurídicos com os advogados da cantora. "Sueli não podia faltar. O álbum já estava na indústria quando tivemos de retirar a canção. Era o ouro do meu disco. Magoou muito." 

O caminho para lançar Maricotinha não inclui passagens por programas de televisão. A intérprete continua preferindo distância das emissoras. "Eu faço mal televisão, sou péssima. Seria, vamos dizer assim, o mesmo que Pelé jogando vôlei. Não consigo entender aquele ritmo, não consigo entender aquela luz, não sei... Fico gelada, travada. Mesmo assim, não tem muito programa de música para fazer. Construí uma maneira de noticiar meus trabalhos sem necessitar tanto da televisão." 

O melhor, diz, continua estando no palco. No silêncio da sala vermelha do Copacabana Palace, entre deslumbrados e apáticos, Bethânia filosofa pausadamente e em voz baixa quando o final da entrevista se aproxima. "A realidade às vezes é intragável. Quem tem o palco é um privilegiado. Ele é mais do que uma tribuna poderosa. É fascinante, mágica." 

Quarta-feira, 29 de agosto de 2001 
Júlio Maria
ESTADAO