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Maria Bethânia brinca de não ser diva

Maria Bethânia não é mais ela. Com 36 anos completos de carreira, resolveu festejar com atraso os 35 anos, e para tanto criou uma alcunha, "Maricotinha". Inspirado na canção de Dorival Caymmi, é este o nome de seu novo CD.

É composto majoritariamente de músicas inéditas de autores mais jovens, que estarão reunidos amanhã, no Canecão, no Rio, com Chico Buarque, Caetano Veloso e outros da geração da artista, para homenagear o aniversário imaginário de Maricotinha.

Para ela, Maricotinha não é Maria Bethânia, mas antes a moça que estreou cantando "Carcará" no espetáculo "Opinião" (65) e hoje é vistosa balzaquiana. Inverte-se tudo: Maria Bethânia, a "diva", ensaia sair de cena; Maricotinha, anônima, esboça tomar as rédeas de um disco interiorano e introspectivo. É equação difícil de explicar, e ninguém explica mesmo Maria Maricotinha. Que uma e outra se manifestem, então.

Quem é Maricotinha ?

Eu a chamo de Maricotinha, de uma maneira delicada, que desmistifica a "grande intérprete". Maricotinha desarma. Na Bahia quem é Maria é Maricota, Maricotinha. Escolhi a música de Caymmi por causa de seu mau humor, "diga a Maricotinha que mandei dizer que não tô". Além de ser lindo, é útil para o que eu queria dizer. Maricotinha está festejando, felicíssima, tudo ótimo, mas "mandei dizer que não tô". Não é Maria Bethânia. É Maricotinha, que se veste toda chique, Yves Saint Laurent, canta, sobe no palco, essa menina.

As músicas escolhidas parecem feitas sob encomenda.

Parecem feitas especialmente para mim. Iam chegando e eu dizia: "Gente, não é possível, esses meninos estão fazendo graça". Não houve qualquer comunicação entre eles, mas é engraçado, todas as canções amorosas falam de amor perdido, saudade, solidão, espera inútil. São canções de inverno, eu diria rigoroso. Mas não têm a ver com minha vida pessoal. Sou intérprete, então a canção de amor mais triste e dramática é melhor para o autor, porque vou fazer melhor que um samba alegrinho, saltitante.
A música árabe é a que mais gosto de ouvir hoje, e ela tem muito silêncio, é deserto. Quis usar umas pausas, uns silêncios para a voz completar. Minha voz sai costurando o disco, fica em cima fazendo uns arabescos, com tudo acontecendo embaixo.

Você está saindo da BMG após este CD. É um momento de inverno? Vai ficar sem gravadora?

(Ri.) Vamos pensar. Estou saindo, já quer que eu engate? Terminei meu contrato com a BMG e saí, acabou. Nada de mais. Sou brigona, mas desta vez não briguei, não. O mercado está muito ruim, meu contrato é caro. Mas não termina hoje, há seis meses de exclusividade, e por um ano devo alguns serviços a eles e eles, a mim. É acordo de cavalheiros.

Seu depoimento sobre novos autores e canções é contrário ao de Gal Costa, de que eles estariam em falta na MPB atual.

É, Gal acha isso. Acho exatamente o contrário. Talvez ela tenha uma melancolia, uma saudade... A canção de Edu Lobo e Chico Buarque é um trilhão de vezes mais difícil que a de Ana Carolina, mas essa tive muito maior dificuldade de aprender. Chico e Edu são minha geração, aquilo já é de mim. Talvez Gal fique sem paciência, "não é assim que já sei". Aí não ouve direito, só pode ser. Há grandes autores, acho que é só ela se aventurar um pouquinho, se forçar a ouvir. Não vai gostar na primeira vez, mas quem sabe na quarta. Se não gostar, não gostou, acabou-se, é direito.

E em respeito à posição política de Gal no caso ACM?

É um comportamento de formação, de educação. Gal quis fazer uma coisa pública, nacional, escandalosa. Acho que tudo que aconteceu com o senador Antonio Carlos e com o Brasil é de nos causar preocupações gigantescas, de nos tirar o sono. Ele é amigo de minha família e um grande fã meu. Mandei um telegrama dizendo do meu carinho por ele como amigo, mas estarrecida com o que estava acontecendo, como todo brasileiro. Só.

A força de sua geração inibe os artistas mais jovens?

Não creio que iniba. Acho que quem tem, tem. Chega e arrebenta. Quando fui cumprimentar Ana Carolina, ela disse: "Sofri tanto para subir no palco sabendo que ela estava aqui que mereço ouvi-la falar". O que levei para ela foi gancho, para fazer melhor ainda. Quando Bibi Ferreira vai me ver eu subo em cena me tremendo, mas um bicho. Faço dez vezes melhor. Não é que intimida. Exige. É saudável. Chico Buarque, tão bonitinho, diz que toma Lexotan quando vou vê-lo.


Lobão tachou o comportamento de diva de "aborto da natureza", e usou você como exemplo. Você aceita o termo "diva"?

Conheci Lobão quando ele era músico de Marina Lima. Ele era um menino suave. De repente, virou uma estrela que não era ele. Não entendi. Mas diva é novidade que vocês inventaram de um ano para cá. Ninguém me chama de diva. Me chamam de rainha, poderosa, abelha rainha, não sei o quê... Mas diva não sou eu. No lançamento de "Alteza" (81), fizeram um trono para eu sentar. Era cilada, sentei no chão.

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Folha de São Paulo 

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:: Entrevista concedida à revista Época ::