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Bethânia reaprende a cantar aos 55anos

Em casa, entre os íntimos, ela atende pelo apelido de Berré. No palco vira Maricotinha. É como a pessoa Maria Bethânia chama a personagem Maria Bethânia, a intérprete. Maricotinha está fazendo 35 anos, ela diz no final da música de mesmo nome, um sacudido samba-de-roda de Dorival Caymmi que encerra e dá título ao novo CD de Bethânia. Os 35 anos de vida artística que ela comemora com esse disco são, aliás, 36. Faltou tempo e oportunidade para a celebração no ano passado. Em compensação, agora não deixa por menos. Não só fez mais um belo disco como vai reunir os autores das músicas para festejar com ela num show antológico, nesta terça-feira, 4, no Canecão, no Rio de Janeiro. A direção é de Bibi Ferreira, com quem já trabalhou outras vezes. 

Tudo começou quando Bethânia substituiu Nara Leão no show Opinião, em 1965. Em meio à recrudescente ditadura militar de então, sua interpretação impactante da engajada "Carcará", de João do Vale, levou os contrários ao regime a apostar no nascimento de uma cantora de protesto. Mal sabiam os incautos que aquela ave rara não era para o bico de oportunistas. Bethânia nunca se deixou abater por qualquer rótulo. Passou altiva por cima de classificações como "ícone da comunidade gay", "abelha-rainha" e "Roberto Carlos de saias". Bastou ser coerente. Aos 55 anos, ao contrário de suas contemporâneas, ela dá sinais de que está longe de estagnar. 

Sem abrir mão da presença de alguns de seus prediletos - Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Mendes -, abraça no disco comemorativo a geração que despontou na década passada. Além dos citados, vão dividir com ela o palco do Canecão Chico César, Adriana Calcanhotto, Ana Carolina, Vanessa da Mata, Lenine, Paulo Sérgio Valle, Renato Teixeira e Carlos Lyra. Caetano, que no CD apenas canta com ela a música de Vanessa, comparece acompanhado de seu filho Moreno. Dori e Nana Caymmi vão representar o pai, Dorival, e Vinicius de Moraes será lembrado pela neta Mariana de Moraes. Nelson Motta, que fez a letra em português de "Água e Pão (Bahia)", do espanhol Pedro Guerra, será o apresentador. Em entrevista a Época Online, Bethânia fala como a relação com os novos autores a faz reaprender a cantar.

Cantoras veteranas como Gal Costa vivem reclamando que não encontram boas músicas novas para gravar. A julgar pelo conteúdo de seu novo CD você discorda dela...

É isso mesmo. Pelo meu CD dá para notar que eu não concordo com a opinião de Gal. Talvez ela esteja um pouco melancólica porque se acostumou a ter os grandes compositores - Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso - criando para ela. Então, na verdade, acho que fica com saudade desse tempo em que já sabia como colocar a voz naquelas músicas. O que talvez falte a Gal é paciência, porque gravar novos compositores significa, de certa maneira, reaprender a cantar.

Por exemplo, nesse disco canto música de Edu Lobo ("A Moça do Sonho", parceria com Chico Buarque, da trilha da peça Cambaio) e de Ana Carolina ("Pra Rua me Levar", parceria com Totonho Villeroy). A de Edu tem harmonias infinitamente mais complexas, tem notas em regiões dificílimas. Quanto à de Ana tem uma levada mais blues, mas senti mais dificuldade com ela porque Edu eu gravo desde o começo da carreira, sei onde ele trafega. Já na de Ana o desafio foi colocar minha assinatura preservando a marca da compositora. Essa é a delícia de ser intérprete.

Ter escolhido gente nova para gravar é só uma circunstância ou uma predisposição a revelar talentos?

Não tenho pretensão nenhuma de revelar talentos. Os que estão no meu disco já fazem muito sucesso e começam a escrever a própria história. Gravo o que me comove e acho bonito. Fico emocionada ao ver que essa geração compõe para minha voz.

Apesar de ser relativamente novos, a maioria dos compositores que estão neste disco já foi gravada antes por você (nos discos Âmbar, de 1996, e A Força que Nunca Seca, de 1999). Isto é uma confirmação de que eles afinam com seu estilo ou o contrário?

Quando gravo um compositor de quem gosto, acho que há uma afinação mútua. E tudo o que você faz mais de uma vez vai se aprimorando. Isso vale tanto para quem compõe como para quem canta.

Que estímulos eles trazem para seu canto?

É uma delícia aprender a cantar de novo, porque, no meu entender, a cada compositor novo você tem que reaprender a cantar. Esse é o melhor exercício para um intéprete.

Quando você faz um disco pensa na unidade dele em termos de arranjos e temas ou o trabalho se desenvolve intuitivamente?

Tem muito de intuitivo, mas também de desejo da sonoridade que se quer alcançar. Como tenho ouvido muita música árabe, pedi para os dois produtores (Jaime Alem e Guto Graça Mello) que prestassem atenção no espaço para a voz dentro da música árabe, nas pausas, por exemplo. É por isso que a "Dona do Dom" (música de Chico César que abre o CD), a primeira que me chegou às mãos para esse disco, tem esse sabor oriental. O ritmo não está tão presente, às vezes ele se irrompe no meio da música para logo em seguida se dissolver, dando espaço para a voz.

Quando você encomenda músicas para um disco, sempre há o risco de não gostar de alguma. Houve algum caso desse tipo? 

Desta vez eu não encomendei música a ninguém, por isso não tem nenhuma de Caetano (ele participa do disco fazendo vocal em "O Canto de Dona Sinhá (Toda Beleza que Há)", de Vanessa da Mata). Quando as pessoas souberam que eu estava fazendo um disco comemorativo começaram a me mandar músicas. Quando eu estava na Bahia recebi um CD com três músicas de Chico César - uma inacabada e as duas que entraram no disco ("Dona do Dom" e "Antes que Amanheça", parceria com Carlos Rennó, que tem o inacreditável verso "a lua é um CD de luz no céu"). Vanessa me mandou a música só para eu ouvir, não para gravar. Mas isso logo me despertou a coisa da família, de cidade do interior. Logo pensei em Caetano para cantá-la comigo, porque ele também não poderia ficar fora de meu disco comemorativo. Vanessa fala de suas coisas, de pessoas comuns e achamos que era uma coisa muito familiar. Era isso que eu queria. 

Teve uma coisa curiosa. Essa música foi a única que gravamos ao vivo, foi tudo direto e uma vez só. Caetano veio gravar e fui colocar a voz-guia fazendo a cama para ele colocar a dele. Gravei num microfone que não costumo gravar. Caetano começou a brincar com falsetes e a mergulhar em graves mais profundos, região que ele pouco explora nos próprios discos dele. Aquilo ficou tão bom e tão bonito que decidimos deixar assim mesmo. Há até algumas imperfeições, mas eu também busquei o erro e as imperfeições neste disco. Tem o som de um instrumento, violaúde, meio fora do tom, mas foi proposital.

No disco Âmbar havia uma música de Chico César em que você alterou a letra porque disse que não admitia pronunciar "Deus" e "bunda" na mesma frase. Agora você alterou ligeiramente a letra de "Maricotinha" (Dorival Caymmi) e deu outro título à de Vanessa da Mata. Você costuma mexer nas letras?

É verdade. Em "Maricotinha" só mudei "por exemplo" por "de repente" (numa das vezes em que repete o verso "mas se por exemplo chover não vou"). Achei que ficava mais engraçadinho. Vanessa me mandou a música sem título, então coloquei um. Quando a música voltou para a gravadora com autorização, já tinha o título dela. Aí resolvemos deixar os dois. Normalmente não costumo mexer nas letras. Quando preciso, faço com autorização do autor.

Você não pôde incluir no CD a música "Imagem" (de Sueli Costa, sobre poema de Cecília Meirelles) porque a família da poeta não permitiu. Como você reagiu a essa atitude?

Isso me deixou extremamente triste. Como eu faço um disco comemorando 35 anos de carreira e não vou ter Sueli Costa no repertório? Fiquei arrasada. Já estava tudo pronto, o disco teve de voltar da fábrica. Os herdeiros não autorizaram. Eles têm dois advogados, que não se entendiam entre si. Não entendi nada porque Sueli já tinha musicado um outro poema de Cecília para o disco de Nossa Senhora que eu gravei e eles autorizaram.

Herbert Vianna tinha composto "Quando Você não Está Aqui" (parceria com Paulo Sérgio Valle) para Roberto Carlos gravar. Como ela chegou até você?

Herbert chegou a mostrar para Roberto e ele disse que ficaria bem na minha voz. O próprio Herbert falou a Roberto que tinha pensado em mim cantando a música.

Por que o título Maricotinha?

Na minha terra Maricotinha é diminutivo de Maria, Maricota. Para um disco comemorativo eu queria um título que não fosse pomposo. Muitos discos meus têm títulos pomposos - Âmbar, A Força que Nunca Seca, Imitação da Vida. Quebrei isso, não queria que fosse por exemplo Dona do Dom. Maricotinha tem um sentido meio debochado. E é de Dorival Caymmi que, me perdoe a ignorância, eu não a conhecia. Um dia fiz um almoço para Nana Caymmi em minha casa em Salvador. A certa altura ela foi para a varanda e começou a cantarolar "Maricotinha". Perguntei de quem era a música e ela me disse que era de seu pai. Então cantou inteira. É a minha cara: tem um mau humor, mas ao mesmo tempo é alegre, pra cima. Queria encerrar o disco com isso. Maricotinha, pra mim, é meu personagem.

Revista Época
Por Lauro Lisboa Garcia