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Maricotinha

Maria Bethânia une no CD músicas de novos autores e delicadezas escondidas de Chico e Caymmi

Gal Costa canta mais. Mas quem ouviu seus últimos discos sabe: que desperdício de talento! Maria Bethânia canta menos. Mas quem ouviu Maricotinha, lançado esta semana, percebeu: é a intérprete mais inteligente da MPB. 

Gal disse que não há mais bons compositores desovando pepitas no balaio das cantoras, e - ai, que preguiça! - regravou velhas músicas de seu próprio repertório. Bethânia fez o contrário. Apostou num punhado de canções de novos compositores, e ainda se deu ao charme de regravar delicadezas que estavam escondidas no repertório de Caymmi e Chico Buarque. Metidíssima, com toda razão, na primeira frase da primeira faixa do CD ela canta: ''Dona do Dom que Deus me deu''. Maricotinha tá que tá. Aturem. Faz por merecer. 

Mercado - Aos 55 anos de idade, 35 de uma carreira que nunca esteve atrelada a ondas do momento, mas sempre ficou próxima do moderno-clássico-atemporal, Bethânia confirma que não está nem aí se o negócio é axé, se é brega ou se é gravar grandes sucessos ao vivo. Faz o seu e o mercado que se vire. Mais uma vez deixou por alguns dias a casa que nunca mostrou para Caras e abriu a boca no estúdio. A idade lhe fez bem. Bethânia já nem grita tanto. 

Maricotinha quase ficou elegante. Onde tonitroava, agora silencia. Onde vociferava contra as canalhices amorosas, agora pauseia acústica sem qualquer mágoa com as traças da paixão. Não bate mais no peito. Podia ter radicalizado todas essas novidades, mas seria pedir demais. Parece lacanianamente, como diria aquela menina no Baixo Gávea, resolvida e persegue o equilíbrio. 

Na capa do CD prendeu os cabelos, do mesmo jeito que fez na estréia em Opinião, de 1965 - nem aí se o rosto mostra os sulcos inevitáveis do envelhecimento. Já no encarte meteu a foto em que aparece nua, seios embicados ao Senhor, da capa de Rosa dos ventos, coisa dos ripongas anos 70. O contraste corajoso anula qualquer nostalgia. Sem essa de saudade. Nas músicas também. Bethânia gravou o clássico Primavera, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, na faixa dois. O pessoal da bossa nova não deve ter gostado. Ficou sentimental demais, justo o grande medo dos desafinados. Três faixas adiante vem de Herbert Vianna na balada Quando você não está aqui. O pessoal do pop deve ter gostado menos ainda. Ficou Roberto Carlos demais. 

É um disco absolutamente particular, independente, de uma cantora que não se mete em trapalhadas políticas, não troca favores com jornalistas, não é vista em decúbito dorsal nas gravadoras, não circula pelos restaurantes da moda - e no entanto está sempre, mesmo que ao seu jeito, por dentro das novidades que interessam na MPB. ''A lua é um CD de luz no céu/ E aqui no meu ap. é um deserto'', diz Carlos Rennó na letra de Antes que amanheça. Bethânia pensa. Gal dispensa. 

Ainda há cortinas de violinos assustadoras (Antes que amanheça, Se eu morresse de saudade) e Maricotinha às vezes insiste em levantar as notas (Depois de ter você) como se quisesse acordar as vendedoras das lojas de discos. Em Dona do Dom, uma balada de sonoridade árabe, o compositor Chico César mata a charada ao tentar incorporar na letra o que deve ir nalma da cantora: metade ''serafim de procissão do interior'', a outra metade ''iluminando o escuro com um bustiê carmim''. 

Sem preconceito - Desde Noites do Norte, do mano Caetano, não saía um disco tão suculento e de bem com a música brasileira. A foto da capa traz Bethânia em plano fechado, mostrando apenas o blazer moderninho de couro. Mas na contracapa, em plano aberto, o jogo se completa: a calça do conjunto é branco-candomblé, e a cantora está naqueles trabalhos rituais de velas acesas, areia e mar que lhe são baianamente emblemáticos. O disco é todo assim: sem preconceitos, sarapatel e sushi - e é recomendável principalmente para quem lambe os beiços com os dois. A discurseira dramática de Renato Teixeira em Juntar o que sentir (''Não me peça o que eu não quero ter/ Só me mostre o que eu não quero ver'') é servida após o mistério elegante de Chico Buarque e Edu Lobo em A moça do sonho (''Um lugar deve existir/ Uma espécie de bazar/ Onde os sonhos extraviados vão parar''). 

Às vezes os arranjos de Jaime Além parecem puxar para baixo. Mas o repertório garimpado por Bethânia é de quem sabe das coisas. Ela pegou Maricotinha, de Dorival Caymmi, que estava no último disco de Tom Jobim, acelerou a levada de samba baiano e encontrou a roupa que vai vestir para sempre esse clássico recente. Tem os novos Lenine e Ana Carolina, também de roupa nova, mais suaves, e os medalhões Gilberto Gil e Caetano, que junta vozes com a mana na bela toada O canto de Dona Sinhá, de Vanessa da Mata. 

É a tal lua, um CD de luz no apartamento deserto da MPB. Gal devia desmentir o ''burrinha'' que Macalé lhe pregou nos cabelos, e chamar Bethânia para produzir seu próximo disco. 

1 de Setembro de 2001
Jornal do Brasil
JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS