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:: Entrevista

ELA CANTA, MANDA E BORDA 


A menina que chamava a atenção na baiana Santo Amaro da Purificação com seus olhos pintados de preto para parecer deprimida ainda tem suas estranhices. Não mais as de menina, mas as de uma artista que, ao longo de 35 anos de carreira, nunca parou de brigar para manter separadas suas vidas, a profissional e a pessoal. 

Ela sabe muito bem quem pode e quem não pode entrar em sua casa, mas ao mesmo tempo é das poucas pessoas que sequer têm chave n a porta. Aos jornalistas, por exemplo, reserva a varanda da Villa Riso, um centro de eventos que fica a poucos metros de sua casa, no bairro de São Conrado, zona sul do Rio. Lá, ela conhece do porteiro à senhora que serve o café, e a delicadeza com que trata a todos desmente a fama de difícil. Para Bethânia, o problema, na verdade, é que todas as pessoas à sua volta têm ciúme dela: "É uma coisa que eu provoco"

Você comprou a sua casa em São Conrado em 1972. Por que escolheu o Rio para morar? 

O Rio me chamou para trabalhar. Eu vim para cá com 17 anos, para substituir a Nara Leão, que estava rouca, no show "Opinião". Achei que ia fazer uns cinco dias e voltar, mas me disseram: "É para você fazer a temporada". Eu voltei à Bahia para ver se meus pais deixavam eu ficar. Eram 12 meses no Rio, e eu ainda tinha que viajar para São Paulo e fazer turnê. Ou seja, era vir embora mesmo. Mas só saí de verdade de Santo Amaro quando fui para São Paulo, e vivi lá por um ano e oito meses. Morava num apart-hotel de antigamente: eram três andares, num prédio próximo à Praça da República, o Baden [Powell] no primeiro, eu no segundo e o Vinicius [de Moraes] no terceiro. 

Devia ser uma delícia. 

Era música nas escadas. Vinicius, lá de cima, o "pai", dando ordens. Eu tinha 18 anos. E Vinicius tomava conta a sério. Era assim: "Tomou suco de laranja? Não? Vai subir e comer dois ovos". Ele jogava duro. "A que horas chegou? Eu vi chegar a tal hora." Para mim foi ótimo, porque eu já gosto de um limite. E saber que eu estava ali, num sanduíche entre Baden e Vinicius... 

E por que você acabou mudando para o Rio? 

Minha casa carioca fica juntinho do mar. Eu não posso viver num lugar de onde não veja água. Eu preciso do mar. Logo fiquei sabendo que era a minha cidade, onde eu ia viver a minha vida. Em São Conrado não tinha luz nem gás, a água era salobra. Mas era maravilhoso. Só mato. Eu tenho um filme do dia em que eu entrei na casa para morar. Filmei toda a vista, toda a praia. Moro no pé da Pedra da Gávea. Ao acordar, todos os dias, é um impacto. Aqui é sempre úmido. Marieta [Severo], quando teve a primeira casa com o Chico [Buarque] aqui perto, às vezes ligava e perguntava: "Como vai nossa casinha de bruxa?". Tinha sempre uma nuvenzinha em cima. 

Você faz festas na sua casa?

Todo ano eu faço. São as festas de que eu gosto, as juninas. Tem Santo Antônio, meu aniversário, São João e São Pedro. No interior, onde me criei, é o mês mais adorável. 

Você gosta de cozinhar? 

Eu que faço minha comida todo dia. Tenho uma empregada que administra as compras, prepara as minhas coisas. Quando é para muito mais gente, eu não vou ficar louca, é claro. Faço o prato que quero e contrato alguém em quem eu confie para fazer o resto. 

E suas jóias, é você quem faz também? 

Desde menina preciso fazer alguma atividade com as mãos. Estudei em colégio de freira e aprendi a bordar. Adoro o silêncio do bordado. Mas depois, mocinha, queria me livrar de toda aquela coisa. Queria virar mulher. Quando eu viajava a trabalho, em turnê, dentro do meu quarto, dividido com mais umas quatro pessoas, sempre tinha um caixote de refrigerante que eu chamava de "minha oficina". Fazia umas colagens e vestia o caixote todo. As coisas que faço são todas muito bobas e infantis. 

Mas tem histórias interessantes, como a da estréia minha e da Gal [Costa] como cantoras, na Bahia: a Gal fez um vestido preto e eu fiz um vestido branco, idênticos. Era um tubinho com decotinho em V. E eu fiz de presente para a Gal e para mim um girassol em folha de cobre, nós estreamos com ele.

Wally Salomão [poeta] diz que em sua casa até as teias de aranha não podem ser mudadas, é verdade? 

Aranha é um bicho sábio. Se eu tenho um jardim com árvores grandes, não posso passar 24 horas mandando o jardineiro tirar uma folhinha. Deixo a natureza rolar. Dentro da minha casa não tem teia de aranha, mas se ela está ali, mágica, bonita, poderosa, por que eu vou tirá-la da árvore? O bicho quis vir para ali, e veio. Wally fica fazendo graça. 

Ele é uma das pessoas que entram na sua casa? 

Eu adoro o Wally. E não tem essa coisa de não poder entrar na minha casa. Eu não acho que tenha grandes atrações para estar com a minha casa cheia o tempo todo. Passo boa parte da minha vida com muita gente, e não gosto da coisa do meu trabalho dentro de casa. Se eu ensaio dentro de casa não tem mudança, e o palco para mim é diferente. Eu preciso dessa diferença. Mas minha casa não é fechada. Caetano até brinca: "Só você para dar festa de porta aberta". Não boto polícia, não boto aquele cartão. Acho horrível ser convidada para uma festa numa casa e ter que apresentar aquilo. 

Seus sobrinhos freqüentam sua casa? 


Moreno [filho mais velho de Caetano] ia muito. Gostava de passar o dia, mergulhar, tomar banho de piscina. Mas depois ficou homem e vai pouco. Os pequenos foram pouquíssimo. Porque menino pequeno para ir tem babá, entendeu? Os meus sobrinhos e os filhos dos meus músicos iam muito quando eu fazia festa de criança, como a de Cosme e Damião. E festa junina eu também já fiz para criança, mas acontece o seguinte: eu amo tocar fogos, eles adoram, e é um risco. 

Na última festa de São João que dei lá em casa os meus amigos adultos também me fizeram a mesma gracinha das crianças: fogos dentro da água continuam queimando -e as crianças descobriram isso, é lógico. Minha piscina amanheceu linda. Criança tem que ter a mesma liberdade da aranha. "Não pegue aí, largue não sei o quê"... Ai, me cansa demais. Deus teve juízo de não me dar filhos. 

Quando você era jovem, falava em ter filhos. 

É sonho de menina, de mocinha, ter filho. Graças a Deus não entrei nessa minha loucura dos 18 anos. Aí, Deus fez assim: "Menina, presta atenção". 

Hoje é muito comum as mulheres quererem ter filhos mesmo sem o casamento. Como a Xuxa, por exemplo. Como você vê isso? 
Para mim é complicado. Filho para mim é resultado de um acontecimento entre duas pessoas. Acho estranho quando resolve assim: "Estou muito só e vou ter um filho". Ou: "Não gosto que mexam nas minhas posses, vou ter um filho solteira". Isso não entra na minha cabeça. Vem da minha família que filho é mesa cheia, refeição com meu pai e minha mãe, os dois na mesma cabeceira. 

Eu gosto muito de quietude, mas gosto muito também de gente. Eu acho que o homem, quando fica só, tende a não exercitar seu melhor. A gente deve diariamente exercitar a convivência. Cinco minutos por dia, e está bonzinho. Minha mãe, por exemplo, é uma mulher que tem lá a vida dela, recatada, séria, fechada, mas todos os dias ela fala: "Graças a Deus eu não estou só". 

O fato de o casamento de seus pais ter sido tão bem-sucedido deixou seus parâmetros altos demais? 

Altíssimos. Para todos nós. Os filhos casados, todos os meus irmãos tiveram dificuldades. Caetano está chegando um pouquinho perto do que ele sonhou. Ele quer ter uma mesa grande com seis, oito filhos. Está com três, um pouquinho velhinho, mas ainda dá tempo. Com a animação dele, dá tempo. O casamento dos meus pais foi muito tranqüilo, muito amoroso, muito sereno, e nos passou essa sensação de formar pessoas. Foi maravilhoso. 

Você hoje não pensa em se casar? 

Não. Acho que nunca quis me casar. Quando eu era menina, 17, 18 anos, eu queria ter um amor, um amor, um amor... E ter filhos. Mas nunca pensei em ser como minha mãe, ser dona de casa, largar minha carreira. Eu ia continuar fazendo o que faço. O palco é muito importante para mim. Não me interessa a vida sem ele.

Você diz que é romântica, apaixonada. 

Demais, demais. Eu adoro todo o namoro. Fazer uma comida, preparar uma mesa, uma cama, acender uma vela, botar uma roupa, oferecer flores, fazer uma música, ler um poema. Eu acho que isso é que é o lado bonitão do ser humano.

Você tem em casa uma capela e coleciona santos. Conjuga a religião católica com a crença nos orixás, além da psicanálise. Como coordena tudo isso? 

A psicanálise eu conduzi muito bem. Tive sorte com o meu médico, ele foi espetacular. Me calçou direitinho, me ensinou a me achar. Nas minhas dificuldades, tenho onde me agarrar. 

E os orixás? 

Minha família é toda católica, mas uma das filhas que meu pai e minha mãe criaram e que viaja comigo para todo lado, a Bá, ela tem uma irmã do candomblé em Santo Amaro. Então, desde menina de braço eu já ia ao candomblé. Quando cheguei a Salvador para fazer o ginásio, já tinha uma certa aversão aos ritos católicos, à obrigatoriedade, aos padres muito ignorantes. Eu ia arrastada à missa. Discutia muito com Caetano: "Se é uma coisa que eu adorava e não gosto mais, está ficando estranho. Preciso solucionar isso. Não quero ficar longe de Deus nem de Nossa Senhora". 

Mas eu nunca fui aos candomblés grandes da Bahia. Tinha pavor. Tinha medo que me pelo, tenho até hoje. Quando Vinicius de Moraes se mudou para lá, ele me disse: "Não acredito que uma baiana não conheça Mãe Menininha do Gantois". Fui para conhecê-la como artista, porque ela era minha fã, mas no que eu entrei e vi aquela senhora, aquela deusazinha, pensei: "Isso aqui é minha casa, meu Deus. Eu quero ficar aqui". E felizmente ela, uma mulher de uma sabedoria única, pôde entender tudo. Ela só me mostrou belezas, e delicadezas, e ternuras. 

Para uma pessoa de palco como eu, é irresistível a beleza das cantigas, dos ritmos, das roupas, das comidas. As proibições todas chatas e pesadas de repente sumiram, a culpa se afastou. Deus não faz mal; o santo, se é santo, não faz mal. Isso dá uma intimidade, uma confiança, um relaxamento que é maravilhoso.

É verdade que você já tentou o suicídio? 

Quando eu era novinha, tive uma depressão grande. Mas era um pouco teatral. Era muito menina, e lembro que pintava minhas olheiras de preto. Me maquiava para ter um ar deprimido. Quando eu cheguei ao Rio, um vendaval entrou na minha vida. Da noite para o dia, deixei Santo Amaro para ser tocada e conhecida pelo Brasil inteiro. Foi muito forte na minha cabeça, me senti com uma responsabilidade que eu não tinha ombro para segurar. 

Estava exposta e tinha que me preocupar com todos os meus atos, por causa dos meus pais, da minha família, das pessoas do trabalho. Por isso eu digo que comecei a ser feliz aos 25 anos. Eu não gostei dos 18, achei um saco. Um dia, me levantei da poltrona da sala, não sei se o que eu tinha era Valium, sei que tomei uns seis comprimidos e apenas dormi um pouco mais. Chamaram meu médico, ele viu o que eu tinha tomado e disse que não era nada. Mas na minha cabeça eu havia tentado o suicídio.

Essa crise depressiva te ajudou a dar uma virada? Você tem domínio sobre a carreira e a vida? 

Quando eu digo que tinha que ter cuidado e responsabilidade era para me manter dona de mim, não entrar em nenhuma loucura. Era medo de me perder. Era muita coisa para uma menina. Porque 17 anos em 1965 era uma menina, menina. Do interior da Bahia, do matriarcado, só vim com o Caetano me acompanhando. Hoje, consigo me expressar, que era a minha grande necessidade, meu grande tormento. Tenho conseguido dentro desse ofício chegar a situações muito além. 

Você sabia qual era o seu ofício? 

Era palco. Tinha uma coisa de tribuna, e não era política, com certeza. 

Por falar em política, você fez campanha para o Fernando Henrique no primeiro mandato. 

Ai, não me lembra. 

Você subiria de novo num palanque? 

Olha, eu conheci o presidente Fernando Henrique em Paris, na casa de uma querida amiga, numa manhã de domingo parisiense em que eu estava fazendo uma feijoada. O que eu tinha lido dele era muito interessante. É um homem muito inteligente, muito simpático, muito charmoso. Naquela manhã iluminada, francesa, eu admirei muito ele. Depois, ele veio para o Brasil, se candidatou a prefeito [de São Paulo], e eu comecei a achar um pouco estranho. Porque, nesse pequeno encontro, raro, sem nenhuma intimidade, eu não o imaginava dentro da política. 

Talvez na minha fantasia eu o visse sempre numa sala de aula falando com tanta desenvoltura e tanta precisão sobre coisas tão importantes. Ele e a esposa me convidaram para um jantar, na casa deles, em São Paulo, uma coisa intimíssima. Ele ainda falou: "Muda o seu título [de eleitor] para São Paulo para votar em mim". Mas eu achei estranho. Aí passamos por aquele mal-estar, aquele vexame, aquele mico daquele senhor [Fernando Collor] que entrou e que nós tiramos, graças a Deus. Eu acho que o vexame foi tão grande que, quando se falou no nome Fernando Henrique, eu infantilmente pensei: "Ah, isso, sim, vai mostrar que nós não somos aquilo". E, quando eu vi, estava meu nome lá, minha carinha na televisão. Eu pensava: "Minha Nossa Senhora, me valha!". Eu nunca me meti nisso. Não é meu barato. 

Acho que depositei todas as minhas esperanças num ser, num homem, num mandato. Exagerei na dose da minha expectativa. E fiquei triste. Não quero nunca mais meu nome ligado a nada. 

Como você lida com a invasão de sua privacidade? 

Eu tive, no princípio da minha carreira, muita intromissão na minha vida pessoal, escândalos com o meu nome, e felizmente meu pai ainda era vivo e minha mãe, ao lado dele, foram muito firmes. Eu sempre sofria, era desagradável, me expondo, expondo pessoas e familiares, mas eu juro que junto a tudo isso eu sempre tive assim um desprezo. Isso é tão pequeno. Apesar das lágrimas, muitas lágrimas que eu derramei.

Tem uma palavra que ronda as suas declarações: controle. Dá a impressão de que você tenta levar a sua vida com rédea curta. 

É que ela vive solta. Controle, rigor, disciplina eu tenho que ter porque subo no palco. Tem que ensaiar muito para na hora não ter que pensar, e isso exige disciplina, limite. E acho que vale para tudo. Por exemplo: às sextas-feiras eu não como pimenta. Qualquer coisinha assim é útil para mim. Não é um castigo, "ai que vontade de comer pimenta hoje", mas não, hoje eu não como. Vou comer amanhã. Dá um certo prazer saber que sou eu que decido. Se eu quiser, como um molheiro inteiro. 

Brinco muito na vida. Tenho a natureza da minha mãe, uma natureza muito alegre, muito doida. Se eu chegar em casa agora e resolver fazer uma festa, eu faço. Tenho a impressão de que meu espírito é tão livre que, se eu largar, ele só quer entrar no mato, não quer saber de nada. Então eu prezo essas coisas terrenas que fazem a gente ter um pé no chão. Chego a ser insuportável com essa coisa. 

Você é assim até em estúdio de gravação? 

Em tudo. Mas eu sou muito simples. O Guto [Graça Mello, produtor musical] fala assim: "Ah, a Maria é uma beleza. Você dá uma boa poltrona, o par de fones de que ela gosta e tudo bem". Mas eu gosto que as pessoas tenham delicadezas comigo, que se ocupem de mim. Não tem graça, depois de fazer 14 discos no mesmo estúdio e com os mesmos técnicos, o fone não ser o que eu gosto. Acho uma desatenção. É um tal de "a dona Bethânia não gosta disso"...Porque eu digo, e se a pessoa não gosta, eu sinto muito. 

Apesar dessa minha fama, tenho facilidade para fazer amizade. Coisa de Gêmeos. Sou danada. Não sei por quê, mas as pessoas todas, pai, mãe, irmãs, namorados, amigos, amigas, empregadas, todo mundo na minha vida tem um ciúme de mim infernal. Eu tenho que conciliar. É uma coisa carinhosa, que eu provoco. Até meu motorista tem ciúme. Se eu vou entrar no carro e alguém abre a porta para mim, ele imediatamente se põe na frente e diz: "Eu sou o motorista da dona Bethânia". 

Revista Marie Claire

Por Cláudia Belém