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Maria Bethânia reestreou ontem, no Palace, o espetáculo
Âmbar. Desde sua estreia, o show viajou Brasil e mundo, ocupou outros espaços cênicos - ocupou, preencheu, açambarcou: são palavras exatas. Bethânia faz assim com a cena, incorpora-a, assume-a, toma-a para si. Ela é a cena, que existe, quando ela está lá, por ela e para ela.
Dirigido por Fauzi Arap, com direção musical e arranjos de Jaime Além, o show, gravado ao vivo, no Palace, virou CD duplo,
Imitação da Vida. O título é uma frase extraída de uma composição do músico baiano Batatinha, que morreu recentemente, um dos mitos da cantora. Tanto mito que, de um espetáculo recheado de textos de Fernando Pessoa, Bethânia foi escolher a frase dele para dar nome ao seu melhor (dos muitos, e formidáveis) disco ao vivo.
Âmbar teve estréia nacional no Canecão, no Rio, em outubro passado. Foi uma temporada longa, por lá. Em dezembro, em São Paulo, foram poucos dias - um único fim de semana. Bethânia queria voltar: "A resposta de São Paulo foi linda, mágica", lembra. Mas havia o compromisso de voltar ao Rio e os compromissos com outras cidades.
Ainda este mês, Bethânia vai a Curitiba e a Belo Horizonte, cidades não visitadas pela turnê Âmbar, que passou por São Luís, Belém, Salvador, Natal ("Cantei num estádio, em Natal, foi incrível", lembra). "Fiz questão de cantar em lugares onde teatros novos foram construídos ou reconstruídos - é raro que se invista na reforma ou construção de teatros", empolga-se. Foram muitas também as cidades do exterior - como Paris, Londres e Lisboa.
Comendadora
Em Lisboa, aliás, Bethânia foi agraciada, pelo governo português, com a Comenda do Infante Dom Henrique, centenária honraria (a escritora Nélida Piñon também a recebeu). Comendadora Maria Bethânia Viana Teles Velloso teve reconhecido seu trabalho de divulgação da poesia de Fernando Pessoa, cujos textos, há muitos anos, usa em discos e espetáculos. "Premiaram-me pelo amor a Fernando", admira-se. "Prêmio por amor... não é tão usual."
Bethânia refere-se ao poeta como Fernando. "É tanta intimidade...", ri, curvando pescoço e deixando que os cabelos cubram parcialmente o rosto. No palco do Coliseu lisboeta era obrigada a explicar: "Quando digo Fernando, digo Pessoa" - eles são mais formais, os portugueses. "São europeus e formais, não ficam íntimos tão rápido quanto nós, brasileiros", diz.
Âmbar não ia virar disco. Seria feita uma gravação, para registro. Bethânia não topou. "Não vale o desgaste", argumentou. "Registro por quê? Para daqui a dez anos resgatarmos a gravação ao vivo, sabe-se lá em que circunstâncias?" - e propôs uma gravação para valer. Escolheu- se o palco do Palace por suas reconhecidas qualidades para esse fim.
Reconhece que Imitação da Vida é seu melhor disco ao vivo. "Já o das canções de Roberto Carlos era bom, mas a técnica de gravações vai sendo aperfeiçoada e este de agora ficou com a sonoridade exata do palco", conta. "Trabalhei para que não se limpassem muito as imperfeições: ao vivo, é inevitável errar, é quase necessário errar, num gesto que tire o microfone da posição exata, num movimento brusco que interfira na respiração..."
Mais duas
O repertório mudou pouco; algumas vezes, só um detalhe da ordem foi alterado. Entrou, por exemplo,
Minha História, do Chico Buarque. Qui Nem Giló, de Luís Gonzaga, passou a ser "uma espécie de comentário" para
O Ciúme, de Caetano Veloso. "Eu gostaria de ter tempo para ensaiar e incluir nas apresentações do Palace a canção
Vila do Adeus, de Roberto Mendes e Jorge Portugal, uma inédita belíssima. Não vai dar tempo. "Mas estará no meu próximo disco", antecipa.
Além do mais, Bethânia não gosta de modificar um espetáculo em sua carreira: "Acredito que, para quem assiste, o melhor é ver o show que já me entrou nos poros, corpo, se entranhou nos cabelos, confunde-se já com a respiração." Não apenas dela, mas dos músicos, dos técnicos... Bethânia lembra-se do tempo em que, com o mesmo Fauzi Arap que a dirige agora, fez o show
Rosa dos Ventos, que ficou quase três anos em cartaz. Um belo dia descobriu que o responsável pela mesa de som tinha um microfone à frente. "É que quando entra o coro, eu canto também", disse-lhe o técnico, ante o espanto da cantora com o microfone em lugar tão desusado.
Muito bem, o show virou respiração, e respiração coletiva, tomando almas e emoções durante um ano - mas acaba. Precisa acabar. Como é o fim? Que tipo de sensação provoca? "Bem, o palco é leviano; a gente não tem o direito de se casar para sempre com ele, não é assim que acontece", diz Bethânia. Mas dá saudade: "Quando fiz a última apresentação no Canecão, pensei, temi, não repetirei mais este show, nunca mais esta emoção especial, essa luz, no Rio de Janeiro."
Por outro lado, diz: "Mas a verdade é que o novo show, o novo disco, já vêm como donos, impondo-se, avisando da chegada, e essa é talvez a maneira de combater a saudade." Não só de combater a saudade: "Também de não estagnar: o artista tem de estar sempre inquieto, espantando-se, procurando e, um dia, o que você estava fazendo já foi, passou."
Caso de amor
Não que ela fique pensando no próximo roteiro enquanto está cena - claro que não. "O que eu sei é que, quando terminar a temporada de
Âmbar, no fim do mês, já vou estar com mil pulgas atrás da orelha", brinca com a imagem. "É como se fosse um caso de amor em que a traição já se anunciasse, já começasse a tornar-se uma presença, como se já existisse alguém atrás da porta." Atenção, porém: "Que ninguém tema por Âmbar, enquanto durar: sou fidelíssima e, acima de tudo, só continuo fazendo um show enquanto ele me tira o sono, a paz, enquanto é paixão."
De novembro a maio, Maria Bethânia tira férias. "Sou baiana e moro no Rio, dois balneários maravilhosos, e é preciso brincar um pouco, jogar com a terra onde se pisa e respira." Alguma lembrança especialíssima da longa temporada? "É difícil falar num grande momento de
Âmbar, um grande momento para mim, pois ele é todo tão sincero e franco... os momentos alegres, os tristes, os angustiados, os serenos, os intensos, os calmos, são todos meus, meus ladinhos todos."
MAURO DIAS
3 de outubro de 1997
veja também:
:: O show Âmbar segundo o seu diretor, Fauzi Arap ::
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