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Verdade, ela molda bem um texto. Quando é preciso, bota os óculos - e lê. Fica bem de óculos, fotografa bem. É difícil dissociar Maria Bethânia de uma narração. (Quem pode esquecê-la declamando Castro Alves no disco Livro, de Caetano?) Aí é que está. Bethânia nasceu para o palco, para a grande boca de cena.
Nada é casual, tudo é conceito em A Força que Nunca Seca, seu novo disco. Com a leitura dos versos de O Trem de Alagoas, de Ascenso Ferreira, dilata o canto-poema de Ferreira Gullar, dá acento ao ritmo de
Trenzinho do Caipira, de Villa-Lobos. E o país fica mais visto - a olhos épicos, olhos doloridos, de amor, olhos de ressaca. (Seriam seus óculos?) Outra não se exporia tanto em
Cacilda, breve ode de José Miguel Wisnik para a montagem de Zé Celso. Brilha contida e retomada, nessa faixa, a linhagem perdida da tradição brasileira dos grandes saltos melódicos. É o clímax do disco. (Embora, no teatro, a versão de câmara original - só voz e piano - seja mais intimista, mais avassaladora, um suspiro a dois.) Clímax por levar a grande dama do teatro da música ao "ser de atriz".
Bethânia é aparição vocal de combinação operística: música e drama. É como se não cantasse, mas lançasse textos, os quais submete à entonação das alturas determinadas. No alemão se diz Sprechgesang, "canto falado". Exagero? Sua qualidade é a força retórica, seu elemento é a tragédia. Bethânia faz pensar. Ela traz o arroubo dos manifestos, uma falsa romântica que torna algo quase estúpido, como a sertaneja
É o Amor (Zezé Di Camargo), um marco da interpretação.
Maria Bethânia impõe respeito, a própria voz põe medo. Sabe assessorar-se de bons músicos, revelar novos talentos, reler. Bethânia subverte a ordem comum, o bem-estar de todas as coisas, as flores do jardim da nossa casa. Nesse Brasil focado em disco recente, passa rápida e melancólica a citação ao Prelúdio nº 3, de Villa-Lobos, disfarçado na faixa
Luar do Sertão (como Edu Lobo, que também foi buscá-lo para sua versão de Falando de Amor). Ah, esse nosso caipirismo já imantado, esse rosto torto, essa viola, essa guitarra portuguesa, esse luar, esse sertão, oh azulão, tudo em nós é romaria.
A Força que Nunca Seca é um disco para ser ouvido aos poucos, e muito, muito de vez em quando. Se você não quiser sentir a alma perturbada, tomada de impulsos arrebatados e incontroláveis. Se você não quiser fazer nenhuma loucura.
Revista Bravo
Veja
também:
<Entrevista de Maria Bethânia sobre o disco>
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