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Ela Está O Máximo
 
Em CD gravado ao vivo, Bethânia acerta no repertório e mostra que canta como nunca


Excelente no palco, nem tanto nos discos, é em gravações ao vivo que Maria Bethânia oferece seus melhores momentos. Em Imitação da Vida, CD duplo e ao vivo que acaba de chegar às lojas, ela não apenas supera o anterior, Âmbar, base do espetáculo que originou o novo disco. Ela também confirma o quanto cresceu como cantora nos últimos tempos, lançando um dos melhores discos do ano e talvez o grande trabalho de sua carreira.A boa surpresa é que Bethânia hoje domina a voz de forma precisa. No passado, priorizava a encenação, muitas vezes em detrimento da afinação. Além disso, seu repertório, devastado nos anos 80 por excesso de breguice, ganhou maior consistência - e o show do qual saiu o CD foi o momento em que essas duas qualidades, voz e repertório, melhor se combinaram. 

Com mais de trinta canções costuradas por versos de Fernando Pessoa e seus dois heterônimos, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, o disco comove.Mantém, do início ao fim, um equilíbrio entre momentos distantes do cancioneiro, indo de clássicos (como Chão de Estrelas, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa) à nova geração de compositores (Chico César, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown) sem perder o fio da meada.Ao contrário, faz dialogar a MPB tradicional com os novos ventos. Entre uma coisa e outra, aparecem canções que Bethânia já havia consagrado, caso de Rosa dos Ventos, Explode Coração e Negue, e até essas ressurgem revigoradas. 

Também os textos que entremeiam as canções não estão ali apenas porque Bethânia, como se sabe desde Carcará, goste de declamar.Eles estruturam o espetáculo ligando as canções, reforçando suas peculiaridades, antecipando uma idéia contida nas entrelinhas de uma outra letra. Com isso, o disco vai crescendo. Mantém o interesse do ouvinte - assim como o show fez com a platéia, como se nota pelo entusiasmo nos aplausos e ovações registrados ao fundo.Para chegar a um resultado assim, Bethânia contou com colaborações. Convidou a amiga Violeta Arraes Gervaiseau, irmã do governador de Pernambuco Miguel Arraes, para ajudar a traduzir no show uma idéia abstrata: "Quero que corra como um rio sereno e fresco", definiu.Queria também falar de amor, de reminiscências, de fé. Nisso, os versos de Pessoa se revelam preciosos. 

O espetáculo de onde saiu o disco foi dirigido por Fauzi Arap, com quem a cantora trabalhou diversas vezes nos últimos trinta anos.Foi ele quem, embora não estivesse na direção do show que Bethânia fez com Chico Buarque em 1975 e que rendeu um outro disco memorável, havia sugerido que ela cantasse, na ocasião, Gita, de Raul Seixas, música que a acompanha até hoje. "Ela e Violeta reuniram material suficiente para três shows, incluindo vários fados, por exemplo. Ajudei a filtrar tudo aquilo. Assim, o significado de cada canção era multiplicado pelo lugar em que se encaixava", diz Arap. 

Para o bom resultado do disco, pesam também os arranjos. Trabalhando com uma formação instrumental pequena, de nove músicos, mas versátil. Jaime Alem pôde oferecer à cantora acompanhamentos econômicos quando necessários e grandiloquentes quando o mesmo pedia. Os músicos mostram sua força nos dois trechos de Beatriz, de Chico Buarque e Edu Lobo, que Bethânia não canta. 

Diamante bruto

Imitação da Vida é um disco primoroso porque mostra uma intérprete consistente em seu ofício. Bethânia, que nunca estudou canto, seguindo o mal conselho de uma professora de teatro que teve no início da carreira, está com a voz melhor. "Ela está muito mais empenhada em dar o melhor em dar sentido ao que canta não através do excesso de emoção, mas sim do controle sobre cada emissão de nota", observa o produtor Guto Graça Mello, quem tem no currículo seis discos de Bethânia, incluindo o último. Ele observa ainda que ela está mais comedida. "Aquele diamante bruto dos anos 60 foi lapidado com o tempo. Hoje ela ganha de ontem em todos os sentidos", acredita Fauzi Arap. 

Tratar as interpretações com maior comedimento e se aplicar mais no uso de sua voz são os trunfos de Bethânia hoje. Nos anos 80, sua originalidade se perdia em repertórios dos quais era possível tirar pouco proveito.Desperdiçou talento em músicas derramadas, como as que ela ouvia na infância, cantadas por Ângela Maria e Nora Nei, com a desvantagem de às vezes escolher canções das mais piegas, sem o charme que tem Lama ou Negue. Bethânia beirou o Kitsch, como no videoclipe feito para uma de suas gravações mais melosas, no qual ela passeava de Mercedes Benz, como se fosse uma diva endinheirada e enclausurada, longe do público e mais ainda da cantora de Carcará. Por isso o novo disco é ainda mais surpreendente. É reverente ao passado e antenado com o novo. Enfim, um achado da MPB. Isso é o máximo que se pode querer de uma intérprete.

Celso Masson
Revista Veja
14 de maio,1997