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A delicada explosão passional da MPB ocorre mais uma vez. Maria Bethânia lança um novo disco,
A Força Que Nunca Seca, e mais do que nunca é o veio inesgotável, a repetição de uma saborosa fórmula que é também destino e sinceridade: doses monumentais de romantismo, um olhar atento à identidade cultural brasileira, reverência religiosa e toques sutilmente amargos numa trajetória de sucesso, mistério e melancolia.
Persona fugidia, mística e de alta voltagem sensual, a cantora Maria Bethânia surge mais uma vez múltipla na capacidade de escolher um repertório que vai de Ascenso Ferreira a Ferreira Gullar, de Carlinhos Brown a Heitor Villa-Lobos, de Zezé di Camargo e Luciano a José Miguel Wisnik, de Caetano Veloso a Catulo da Paixão Cearense e singular em conseguir, com o diamante bruto de suas preferência de múltiplas, fabricar o colar dramático do estilo inconfundível.
Também reafirma paixões estéticas, sendo privilegiado nesse disco o paraibano Chico César, que ao compor a música-título do CD em parceria com Vanessa da Mata sensibilizou a cantora, garantindo à canção o passaporte para um lugar de destaque na obra de uma das mais importantes intérpretes da música continental.
A propósito de A Força Que Nunca Seca, a cantora revela o entusiasmo pela capacidade que os autores tiveram de retratar de maneira poética aspectos especiais do cotidiano popular, onde a vida é dura mas sempre sobra espaço para um encanto.
Falando em paixões reafirmadas, Roberto e Erasmo Carlos estão presentes. A pedra do colar é
As flores do Jardim da Nossa Casa, momento do CD que encarna todo o tom solene da visão musical da cantora baiana.
O romantismo desbragado não cessa e Bethânia, olhar sempre em busca do melhor esteja ele no passado, presente ou futuro, resgata de Gonzaguinha
Espere Por Mim Morena, transformada em luva para a voz naturalista da intérprete que, no futuro, pescou
Não Tenha Medo, do compositor Niltinho Edilberto, visto por ela como uma promessa de sucesso. O presente está muito bem representado por
Agradecer e Abraçar, de Vevé Calazans a Gerônimo, símbolos da música urbana baiana que abraçou o país.
Renato Teixeira faz aparição especial: Romaria leva banho do estilo Bethânia e ressurge com roupagem um pouco mais cintilante, marcando um olhar interessado da artista na paisagem interiorana brasileira, visita que começa com o
Trenzinho Caipira de Villa-Lobos e Ferreira Gullar.
Globalização
O CD é um produto sofisticado, multinacional, expressão legítima de uma globalização que em arte sempre acaba melhorando o resultado final. As gravações foram realizadas no Rio de Janeiro, em Lisboa, Londres e Los Angeles. Tudo em nome de uma qualificação, o que garante melhor qualidade sonora e também artística ao trabalho.
Voz hipnótica se mantém há trinta e quatro anos
Maria Bethânia não tem a solenidade e contenção dramática espontânea das cantoras Sade Adou ou Nana Caymmi. Não consegue as alturas cristalinas de Gal Costa nem de Marisa Monte, não tem o balanço de Alcione nem a técnica requintada de Zizi Possi. Mas o encanto primitivista de sua voz grave e de indiscutível potência dramática vem hipnotizando milhões de pessoas há mais de trinta e quatro anos.No palco iluminado das personalidades artísticas brasileiras, um novo disco de Maria Bethânia equivale a aparição sempre especial de Roberto Carlos. Ela é a versão solene, esotérica do “Rei” também afeito a transes religiosos. Ambos fazem a apologia do sensível, uma busca do sentimento puro enquanto instrumento de pacificação de dramas interiores. Show existencial classe média.
O novo Cd tem, como diria conselheiro o Acácio, aspectos positivos e negativos.O mais positivo é a saudável diversidade das fontes, quase todas de altíssimo nível, que compõem um repertório plural, sensível e inteligente. Várias gerações de compositores se cruzam no disco, todos no entanto, a serviço da sonoridade e do padrão emotivo, recheado de melancolia, às vezes um pouco entediante, com os quais Bethânia encanta legião de fãs.
O aspecto negativo é a extrema contenção formal dos arranjos , que terminam por sofrer um tipo de pasteurização. O equilíbrio obsessivo na exposição dos motivos resulta num som gotejado por monotonia. Mas o excesso linear serve de contraponto adequado à intuição exacerbada, ao permanente estado à flor da pele da cantora que realmente consegue afirmar-se enquanto intérprete poderosa, esculpindo com determinação versões personalíssimas de clássicos da MPB ou conduzindo com graça os novos talentos, como no caso de Niltinho Edilberto, autor de
Não Tenha Medo - um sofrível coquetel de lugares comuns que na voz de Bethânia se transforma em apelo passional sincero.
O melhor momento do disco é a recriação da toada abolerada (é possível isso?), ou balada sertaneja
É o Amor, de Zezé di Camargo. Á maneira do irmão Caetano Veloso, ela tem o poder de alquimizar um hit popularríssimo, milhões de vezes executado em AM e FM, numa canção de frescor inédito. Momento em que a cantora se revela totalmente, manejando inflexões como se fosse o gestual de uma atriz trágica, carregando nos graves, verticalizando a paixão e sugerindo uma viagem interior por florestas de solidão, carências e desejos não realizados. Um disco para que é adepto. Um disco também para quem quer conhecer um fenômeno da música contemporânea. Walter Galvão
Jornal Correio da Paraíba
Quarta-feira, 03 de março de 1999
Veja também:
<Entrevista de
Maria Bethânia sobre o disco>
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