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Playboy entrevista MARIA BETHÂNIA
 

Uma conversa franca com a voz mais impressionante da MPB sobre o vale tudo no amor, a solidão da Xuxa, o chuveiro do Mastroianni e aquele cujo nome não pode ser dito

Dizem que, num de seus delírios pós-tropicalistas, o empresário artístico Guilherme Araújo tentou colocar Maria Bethânia vestida de fada no palco, com varinha de condão e tudo. A idéia não colou - afinal, estamos falando de uma cantora que só faz o que quer, capaz de atirar o microfone longe quando o ensaio vai mal. Mas até que esse toque de fantasia tinha a ver. Bethânia carrega uma personalidade mística que não escapa às pessoas mais íntimas. É uma "sacerdotisa" para Caetano Veloso, o mais ilustre de seus sete irmãos. "Iansã viva" no palpite do jornalista e produtor cultural Nelson Motta. "Esfinge Baiana" para outro jornalista, o já falecido Ronaldo Bôscoli. "Um orixá" , na opinião do escritor Jorge Amado, ele próprio cada vez mais próximo de se parecer com uma entidade nagô. Nem a nova amiga, a gaúcha e modernete Adriana Calcanhoto, deixa de fazer um comentário esotérico: "Ela tem um fogo sagrado", avisa Adriana, autora da música que deu nomo ao mais novo pacote de disco e show de Bethânia, Âmbar.

Para não perder o hábito (e dar mais gás a sua aura elegante odara), esta senhora de 50 anos, a primeira mulher brasileira a esbarrar em i milhão de cópias vendidas de um dos seus 35 discos, Álibi, de 1978, vive batendo na madeira para espantar os maus espíritos. Precisar, não precisa. Maria Bethânia Viana Teles Veloso, faz tempo, vive no Olimpo das grandes intérpretes da música popular brasileira. Tudo porque, como queriam os deuses, aos 18 anos saiu da Bahia e substituiu Nara Leão, musa da Bossa Nova, num célebre espetáculo do Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, em 1965. Franzina, tímida, caladona, a ilustre desconhecida puxou para baixo os queixos da platéia quando soltou a voz grave e selvagem para cantar Carcará, de João do Vale e José Cândido. No refrão - "Pega, mate e come" - , quem engoliu o musical foi ela, uma estrela desde o começo.

Da cidade natal, santo Amaro da Purificação, até o paco Olympia de Paris, Bethânia foi aspergindo seu pó mágico de grande dama. Entre patuás e discos de ouro, entre oferendas às divindades do candomblé e o dom para endeusar compositores - Djavan, Gonzaguinha -, a cantora fez fama, fortuna e folclore. Hoje ela é uma diva que mora encastelada na Estrada das Canoas, zona Sul do Rio, protegida por duas cadelas Boxer e abraçada por jardins e cachoeiras artificiais. Anti-social, célebre por manter a vida íntima guardada em mistério, tornou-se um desafio que playboy propôs a experiente repórter Norma Couri, de volta ao Brasil ao cabo de oito anos como correspondente do Jornal do Brasil em Lisboa.

Novembro de 1996

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