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Playboy entrevista MARIA BETHÂNIA / Parte II
 

O resto da vida é acessório?

Fico fazendo hora para o tempo passar, para poder subir no palco outra vez.

Você passa isso para o público?

Tem casos de pessoas que assistiram 36 vezes ao mesmo show. Uma vez, fui procurada por uma mulher com a expressão desesperada, no final do show. Ela dizia: "E agora, o que eu faço com isso tudo? O que eu faço, pelo amor de Deus?

O que você respondeu?

Não tem resposta. São coisas que passam sem a gente perceber. Eu sei de gente que vai assistir ao show calibrado com um drinque antes e o motel reservado pra depois. Bebem a energia, ela não termina quando o show acaba.

E você, como sai?

Exausta [risos]. Desabo na cama e durmo.

É como se tivessem tirado tudo de você?

Não, eu é que dei tudo. Minha irmã Nicinha, que eu chamo de "Babá", já sabe. Quando chego depois do show, ela diz: "Bom, até já, que eu vou guardar a bolsa", e não volta mais. Sabe que eu não volto muito normal. Isso há anos.

Redondos: 50 de vida, 35 de carreira, 35 discos.

Já passei por todas as gravadoras do Brasil. Sou o contrário da Fafá de Belém, que, num programa de TV em que os quatro convidados dela eram presidentes de gravadoras, dizia, muito orgulhosa, que nunca tinha brigado com eles. Eu brigo com todos e vou-me embora [risos]. Gravadora é pra vender e eu, pra criar. Tem de haver um desentendimento.

Você também não levaria ninguém para a televisão, porque detesta, não é?

Eu não rendo em TV. É fria e tem regras assumidas, quem entra num estúdio de televisão tem de gritar. Ninguém diz: "Por favor, você poderia se sentar ali?" Não, é assim [aos berros] "Maria Bethânia, senta ali"[Risos]. Não é humano. Você está cantando, o câmera erra alguma coisa, o diretor grita, estremece o mundo e seguem-se muitos palavrões. Todo o mundo é poderoso, o diretor fala "corta" e você some. Fico desse tamaninho.

Por causa de sua aparição no programa da Hebe Camargo, há dois meses, você foi incluída entre os "espantalhos" da TV, junto com a primeira dama Ruth Cardoso e o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. A audiência caiu 2 pontos [risos].

A Hebe me convidou tanto que eu fui. Só que não agüentei, na hora de entrar pedi para ir embora. A Hebe implorava e eu chorava... É ruim porque a televisão é obsessão de brasileiro e eu preciso divulgar meu disco.

Você vê televisão?

Só esporte. Sou louca pelo Chicago Bulls, não perco um campeonato.

E novela, você acompanha?

Quando o par romântico era Dina Sfat e Francisco Cuoco eu não perdia [Risos]. A Dina chegava a me ligar no Canecão, em pleno show, para avisar: "Não perca a cena de amanhã, vai ter camisola preta" [Risos]. Eu adorava as cenas em que ela punha camisola preta. De lá pra cá, Santo Antônio!, piorou tudo nas novelas, até a luz. Claro, tem o Raul Cortez, o Lima Duarte, que é gente de teatro. Esses valem a pena. 

Você se inspira em alguém? A musa não era a cantora Janis Joplin?

A gente se conheceu, ela gostava de mim, fez questão de vir a minha casa quando esteve no Brasil no início de 1970, mas já estava catatônica com a heroína. Mas o desconforto que ela e o Jimmy Hendrix expressavam tinha a ver com o Tropicalismo. Era aquela alegria por trás, um querer bem ao Brasil e o lema: "Não parecemos com ninguém, mas temos um estilo". Sem a humilhação que o brasileiro normalmente ostenta, sem botar tapete vermelho para o estrangeiro.

Foi isso que você comentou sobre o terceiro disco de Marisa Monte, dizendo que era a primeira vez que ela parecia contente em ser brasileira?

E sem mostrar que fala inglês! Ela vendeu assim: Sou bem nascida, só me identifico com Nova York, a minha música, a minha maneira de vestir e andar têm uma raiz novaiorquina. Os discos nova-iorquinos dela são ótimos, só não me tocam o coração como esse que elogiei [Verde, Anil Amarelo Cor-de-Rosa e Carvão, de 1994]. Não se iluda, ela não deixou de ser nova-iorquina, não. Mas jogou com o nome de Paulinho da Viola e o violão de Gil.

Você não canta em outra língua?

Não. Quando enfio umas canções espanholas no repertório é porque têm a cara da gente. Agora, não sei quando, vou fazer -um disco - com canções francesas, porque sou apaixonada.

Por Paris?

Queria até fazer o clipe de Âmbar cantando Chão de Estrelas com cenas de Paris à noite. Você já viu já viu alguma coisa mais parecida com Paris que "Tu pisavas nos astros distraída/ Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão...."? Não dá uma força enorme a uma canção carioca?, que se refere ao morro do Salgueiro, com imagens de Paris? Mas a gravadora cancelou.

Paris é tão familiar assim pra você?

É igual a Santo Amaro da Purificação [Risos]. Sempre tive fixação por Paris. Quando dizia que ia viver viajando pra lá, meus amigos baianos diziam: "Oxente, essa menina é pequena mas fita os Andes". Chego lá e é como se estivesse em casa, ando sem parar, e tropeço em astros distraídas...no lobby do hotel.

Onde você costuma se hospedar em Paris?

No L'Abbaye.

Não é lá que ficava Jorge Amado?

É, e meu companheiro de quarto é o Mastroianni! Quer dizer, ele se hospeda no mesmo quarto que uso quando vou a Paris, e fica tomando champanhe na lareirinha lá de baixo, rodeado de um monte de atrizes famosas , todas ex-mulheres dele, Catherine Deneuve entre elas.

Você se senta lá também?

Não, mas divido o mesmo chuveiro com ele. Só tem um quarto no L'Abbaye com chuveiro normal, os outros são aqueles europeus, estilo telefone de mão, que você tem de ficar segurando. Então, só me hospedo no quarto 3. Mas teve um reveillon em que eu estava no meu quarto e o Mastroianni chegou, querendo ficar ali. Falei com o porteiro e soube que aquele chuveiro em pé foi o Mastroianni quem mandou instalar. Achei que ele merecia que eu cedesse o quarto - e eu já ia passar a noite fora de qualquer jeito. Ele me mandou um recado, dizendo que voltava dia 2 para a Itália. E eu mandei um bilhetinho "Mastroianni, pode ficar" [risos]. Não é pra me sentir em casa?

Vamos voltar pra cá. Ficou em todo o mundo uma dúvida desde 1965, quando você cantava Carcará - "É um bicho que avoa que nem avião/ É um pássaro malvado/ Tem o bico volteado que nem gavião..." Era um ato político que tinha a ver com o marechal Castello Branco, na Presidência depois do golpe militar de 1964? Afinal, Castello era feio e, como o carcará, nordestino.

Carcará é um pássaro feio, forte, violento, que tem o pode de carregar uma águia mesmo. E o autor da música, João do Vale, é um cara intuitivo, estávamos numa ditadura em 1965, ele sabia que a música ia ser usada no espetáculo do grupo do Teatro Opinião contra a maldade e o poder dos militares. Era também a força do nordestino , do homem brasileiro dizendo "sai de baixo que eu também sou carcará". 

Você disse que não mistura arte com política.

Mas, como todo artista, sou uma esponja, assimilo, chego no palco e boto pra fora. Foi isso que aconteceu no panorama cultural daquele período. Depois, não melhoramos muito. Saímos desses anos negros para cair numa cilada perversa de causar danos iguais ou maiores. Como eleger aquela quadrilha que nos deseducou, desnorteou e tirou tudo do lugar. 

Você está falando...

...daquele presidente que a gente botou pra fora.

Fernando Collor. 

[bate na madeira três vezes e sopra] Não digo o nome dessa miséria.

Você fez campanha por Tancredo Neves, não foi?

Achava o Tancredo um velhinho maravilhoso e torci por uma idéia, "Diretas Já". Campanha mesmo foi só para o Fernando Henrique [nas eleições de 1994]. Mas nunca mais faço outra.

Por que? Você se decepcionou?

Está sobrando miséria, violência, desemprego, e as pessoas fingem que não estão vendo. Lembro-me do julgamento dos "anões do orçamento", no qual aquele deputado descarado, Genebaldo Correia [do PMDB da Bahia, cassado pelo Congresso Nacional por corrupção em 1994], aquele moleque lá da minha terra, olhava para um cheque dele mesmo e respondia "Não lembro, não" [Risos]. Ele se "esqueceu" de ter comprado uma fazendinha de 1 milhão de hectares. Pois o poder brasileiro hoje é Genebaldo.

E quanto ao senador Antônio Carlos Magalhães [do PFL da Bahia], que apóia o governo?

O Tonico? Ele é como sarapatel: ou se ama ou se odeia. Adoro ele, é supermaravilhoso, a gente se envia telegramas nos aniversários. Antônio Carlos é um homem poderoso, que mexe com emoções exageradas, sentimentos extremados. Todos os Estados têm seus "caciques", e ele é louco pela Bahia, faz umas campanhas no jornal e na rádio - é tudo dele, o jornal, a rádio - , como "Orgulho de ser baiano"! E é machão, dasacata todo o mundo, divide os baianos. Em todos os espetáculos que fiz, desde a estréia no Rio, dentro ou fora do Brasil, ele estava na platéia.

Você vota nele?

Nós somos uma família de esquerda, não temos formação de apoiar o pensamento do senador, que é de extrema direita. Depois, voto no Rio. Mas esse homem trata o artista com o respeito e distinção. E sempre reverencia minha mãe, Cano, da maneira mais nobre e clássica. Esse gesto de delicadeza tem de ser agradecido, porque é educação que está faltando no Brasil. E, olha, quando a igreja de minha cidade, da Nossa Senhora da Purificação, que tem 400 anos, caiu, não houve político de esquerda que desse jeito. Telefonei para o Antônio Carlos Magalhães, foi na hora - e eu não posso pensar em viver sem a igreja de Nossa Senhora da Purificação de pé.

O Presidente também é um homem distinto?

Fernando Henrique, que conheci há muitos anos em Paris, na casa de minha amiga Violeta Arraes [irmã do governador de Pernambuco, Miguel Arraes], é inteligentíssimo, bem-humoradíssimo, honestíssimo e tem uma conversa bacaníssima. Agora, como é que ele permite que no governo dele as escolas exijam avalistas para matricular uma criança?

O Lula daria um presidente melhor?

Votei nele [nas eleições de 1989]. Chorei na hora de votar, fui criada ouvindo meu pai [José Telles Velloso, falecido em dezembro de 1983], funcionário dos Correios e Telégrafos, carteiro e poeta, dizer que queria um trabalhador na Presidência do Brasil.

E o que achava do envolvimento de artistas em outro tipo de campanha, como a que Daniela Mercury fez para a Antarctica?

A conta da Daniela é do [publicitário] Nizan Guanaes, que é baiano. Ele patrocina e usa a Daniela. Agora, a Daniela está com uma música na novela [À Primeira Vista, de Chico César, na trilha de O rei do Gado], até que está tocando bem. Mas soube que o segundo disco foi um equívoco. Eu não suporto a axé music, acho um cão. Mas a Daniela tem talento.

E a Adriana Calcanhoto?

Não coloque a Adriana no nível da Daniela, que não tem nada a ver. A Calcanhoto é uma compositora muuuuuito boooa, uma menina que tem um trabalho diferenciado, especial, nobre e com muito humor, sem perder o pé no popular. Faz as performances mais loucas, as poesias mais absurdas, os discos mais complicados. As gravadoras devem se arrepiar todas quando ela entra em estúdio. Ela declarou que não gosta de música com princípio, meio e fim, o que é, no mínimo, louco e maravilhoso.

E Daniela?

É uma moça bonitinha, gostosinha, bem-feitinha, faz essa linha pernoca-de-fora, tem talento, tem voz, sabe cantar, sabe dançar, sabe fazer tudo. Mas tem uma musiquinha que não é nada.

Quem toca o seu coração?
Nora Ney é chiquérrrima. Dalva de Oliveira é campeã. Hoje a voz que me comove no Brasil é a de Nana Caymmi.

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