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Não
se canta no escuro
no silêncio do quarto
sob o luar na praia
no vazio
mulher
que fôr assim
plena mulher feita de
mil tensões
Mulher
que fôr assim
Bethânia tôda
canta-se
no palco
onde se nua estivesse já
veríamos
entre os seios azuis
um tormentoso rio
Aqui
te canto
para fazer de tua bôca
um canto
o teu canto
na tua rude voz áspera e rouca
onde os dentes se travam
onde o ácido gôsto de teu canto ácido
nada tem de doce ou amargo
Aqui
te canto
a revolta de tua raiva
e beijo
as duas mãos espalmadas
teu pulso e o pulsar de teu pulso
esse mar se alarga de mão a mão
gesto distendido e elástico
Aqui
te beijo
Aqui te canto
Aqui te peço
que entre minhas mãos
se entregue
êsse feixe de tensões
o corpo teu
erguido de manhã
plantado no horizonte
guerreira guerrilha
Aqui
te canto
guerreira
guerrilha
Venha
dormir conosco
guerreira
guerrilha
e
nos incita
guerreira
guerrilha
e
nos ensina
a fôrça de tua
juventude
aberta e alegre
guerreira
guerrilha
e nos ame quando for de manhã e tudo parecer
guerreira
guerrilha
e
tudo perdido
Ao duro canto teu nos ergueremos
guerreira
guerrilha
serás
nossa bandeira
guerreira
guerrilha
e
nossa pomba
Aqui te canto
e aqui te vejo
flor armada
pomba
alçada em vôo
guerreira
gerrilha
De
metal e nostalgia
guerrilheira
faço
a rêde de teus nervos
Serena de emoção
ei-la sem susto
contemplando a ternura que a envolve:
os olhos mais argutos esquadrinham
o objeto do amor em vez de amar-se
De
revolta e alegria
guerrilheira
teço
o pranto de teus erros
de saudade e rebeldia
armo a glória de teus mêdos
Serena de emoção ela
se sabe
eterna a antiga em sua juventude:
em vez de responder ou respondendo
se afasta do corpo e dobra a alma
para ver onde vai o que pretende
a própria alma e corpo sob a mira
do olhar: tormento que vê sem mira
a coisa vista com os pensamentos
De
pudor e água fria
guerrilheira
risco
o mapa de segrêdo
de inferno e fantasia
guerrilheira
abro
a porta enquanto cêdo
Reencontro de infância:
amor primeiro
flor renascida na adolescência: canto:
deslumbramento matinal: insepulta
lembrança amanhecida: certo constrangimento:
a inibição e o espanto: o espanto esmaecido
e anunciando a iniciação do amor quando já sabe
a duração efêmera do ciclo ameaçado:
e o perigo de amor quando a ternura
já não pode tolher o mêdo e o susto
De
tragédia enquanto é dia
guerrilheira
enche
a noite de torpedos
de chumbo e melodia
calço as luvas de teus dedos
de azul e ventania
abro as velas dos cabelos
de seda e artilharia
organizo teus brinquedos
Amar e perder no gesto
de amor o terno amor
e ver se desmanchando entre as mãos
a essência do carinho e o movimento para além
frustar-se no efêmero: amar e ganhar tênue quase amor
o instante de eterno:a a permanência:
memória juvenil onde se grava
a glória agora de ver a vida clara
Te
lanço nessa aventura
guerrilheira
bem
vestida e preparada
com a alma bem nutrida
com a cara bem lavada
com a fúria bem contida
com as unhas afiadas
Nesse plano de tempo
onde nos pomos
fímbrias de azul asa sem vôo
Amor sem posse: o desconhecimento
de quem somos canta e torna a ser espanto
Por não ser quase nada sendo tão intenso
Imenso não imenso: um pouco o desvario
De ocupar no coração vazio a dimensão do tédio:
Algum rancor contido: amor inexistido
Flor de aragem: mas como pulsa e dói
Não ver além do encontro o teu rosto sorrir
E o beijo sendo entrega não trazer
Além do beijo em si resposta alguma
Te
lanço nessa aventura
Guerrilheira
No
sentido da vitória
Com a história bem sentida
Guerrilheira
sentindo
o peso da história
A história da nossa gente
Guerrilheira
gente
de amarga história
A te perder construo no
momento
A eterna duração sem sofrimento
É por aqui senhores que se entra
No amaro verbo ser quando se é
Despede
de tua mãe
Um adeus sem oratória
Enquanto
a criança brinca
A morte espreita
Não chamemos de pórtico
à cancela
Por onde entra o homem não a fé
Beija
a cara de teu pai
Pai adeus eu vou me embora
Enquanto
a criança inventa
Não suspeita
Que a morte com sua côrte
Fome tifo maleita
Oculta na sombra densa
Aguarda espera espreita
Aqui se canta o mar dos
abdomens
Das coxas desvairando: da maré
Subindo a tensão de cem mil homens
Comendo anjos que julgam mulher
Diz
"até" pro teu irmão
Que te deseja vitória
É
insuportável saber
Que de minuto em minuto
Sopra o vento tomba o fruto
A morte com seu cortejo
Sorri satisfeita
Aqui se fala do útero
florindo
o outono licitante as escamas
Os mísseis florescendo nas campinas
Germinando em mulheres pela cama
Abre
bem o coração
Na hora da despedida
Ao passar pelo portão
Você deixa meia vida
A
morte já não espreita
Ataca a morte ataca
Ataca
Tocando sua matraca
Insuportável matraca
Ceifa
Ou não se canta o
homem antes se mostra
De sua eternidade quase tônica:
Se prova deus comendo o sol do inverno
Se mostra o vivo fúria catatônica:
Se canta e prova da eternidade
Explodindo explosão estereofônica
Controla
tua emoção
e caminha decidida
Insatisfeita
ceifa
Insaciável ceifa
Explodindo
explosão estereofônica
Tua
mãe chora escondida
Você finge que não viu
Nordeste?
Vietcong?
Não: aqui do nosso lado
Em frente à esquerda à direita
Aqui se mostra: ao ar
irrespirável
O corpo resistência tal levanta
Que para silenciá-lo nada existe
A não ser a vontade de ser triste
Você
beija a boneca
Ela finge que não viu
Com
sua côrte amarela
Favela
A morte já não espreita
Ataca ceifa
A morte com sua côrte
De fome febre maleita
Ataca morde pisa e ceifa
A não ser a vontade de
ser planta
O não ser da vontade de ser morto
Mas quando o corpo fala a vida canta
Você
monta seu cavalo
Sem esquecer seu fuzil
O fuzil de tua voz
Tem jeito de ser brasil
Assim
quando se arma
De foice um braço
Assim
quando se ama
De amor um abraço
Assim
quando se doma
Um fuzil na trincheira
Assim
quando se toma
De carinho uma fêmea
Assim
quando se morde
Um cachorro no front
Assim
quando se beija
A criança na fronte
Assim
quando se avança
Algo além do perigo
Assim
quando se pasta
Entre os seios e o umbigo
Assim
quando se junca
O chão de cem mil bombas
Assim
quando se chama
A vagina de pomba
Assim
quando a fuga
Tem o gosto de vaia
assim
quando se fere
A mão por sob a saia
Assim
quando se come
No rim a faca acessa
Assim
quando se janta
A moça sobre a mesa
Assim
quando se tenta
Surpreender o inimigo
Assim
quando o amor
Vale mais se ferido
Pacífica armadilha o
sol levante
Aventura
aberta
A sorte te valha
Um levante de garras
silencie
o
fogo do sonho
não é fogo de palha
A usura do tempo a alto
juros
Tem
o corte sêco
De sêca navalha
Cobrada por quem não
vivencie
No
capim mimoso
O fogo se espalha
Os golpes do presente
nos futuros
Tece
o labirinto
De estreita malha
Os futuros nos golpes
galopantes
A
trama medida
Não aceita falha
Os galopes de sangues
sobre muros
Se
o caminho é longo
A vereda atalha
Os muros recobertos de
meus sangues
O
fogo do sonho
Não é fogo de palha
Os sangues escorrendo
por mil furos
No
corpo se tem
A
melhor arma
Os duros saques nos
fazendo exangues
O
ar do pulmão
A mão fechada
Pacífica exploração
de mil granadas
O
impulso do pé
A fé raivosa
Arme no temporal tal
armadilha
A
prosa da boca
O lábio selado
Para nelas cair bois em
manadas
A
dívida paga
Na faca dos dentes
Presa nas praias de
fundidas ilhas
O
urgente fogo
No esôfago aceso
Que se mordam
quermesses desvairadas
O
preço do gesto
No acesso do tiro
Sobre guerreiros mortos
em guerrilhas
O
sentido do olho
No molho do sangue
Caia teu corpo o corpo
mergulhando
O
enxague corpo
Torto na trincheira
No fundo de tuas próprias
armadilhas
A
fieira dos nervos
Acesoa no arsenal
Mulher de mil paixões
desarvoradas
O
quintal do ventre
Entre a glória e o pasto
O casto siléncio
No incêndio do açúcar
O azul do carbono
No sono em vigília
O dia nos ombros
O peso das coxas
O sal dos tecidos
Retido na pele
O leque da mão
Rápido no golpe
O fole dos brônquios
Contido no salto
No alto do corpo
O cérebfo frio
Que risca o fósforo
E acende o pavio
No segundo exato
Em que a vida pende
Depende
Da ponta de um fio
No fundo de tuas próprias
armadilhas
Mulher de mil paixões desarvoradas
Trincheira de napalm entre as virilhas
A
flor na mão
Ela arma e trama seu caminho
A mão no corpo
Ela traça em azul o seu carinho
O corpo no barco
0 barco no porto
ela rasga os enfeites do vestido
o porto no rio
o rio na mata
ela passa o uniforme azul-marinho
a mata na terra
a terra na vala
a vala no ventre
o ventre no limo
ela força as portas do sentido
ela dobra a bandeira feita de linho
ela segue rasteira feita em tigre
ela morde o veneno que a morde
ela acende o fogo e se dissolve
ela adentra a amata mais tranqüila
o limo no sol
o sol na pupila
a pupila no alvo
o alvo na alma
a alma no salto
ela reza a oração mais primitiva
ela ensina a lição de amor à pátria
o salto na moça
a moça na água
a água na fronte
a fronte no chão
o chão no pomar
ela dança o ritual da guerra santa
ela fala a canção que fala em greve
ela monta o corcel feito uma fada
ela é todo um batalhão em marcha lenta
o pomar na praia
ela inventa um bélico acalanto
a praia no mar
o mar na areia
a areia no olho
ela sente que o inimigo se aproxima
o olho no vulto
o vulto no bosque
o bosque na sombra
a sombra no medo
ela grita aos homens que debandem
ela é presa e mordida por abutres
ela explode o corpo em mil pedaços
ela atira mil tiros de granada
ela é toda uma explosão estereofônica
ela assusta os abutres que a cercam
o medo no pasto
o pasto no monte
o monte no campo
ela é toda um clarão que ofusca e mata
ela é toda a canção que anima e empolga
ela é toda um regimento adestrado
ela é o hino cantado que se canta
ela ordena e o povo se levanta
ela articula o jogo das estrelas
ela fabrica o esqueleto do invasor
o campo de luz
da luz um feixe
do feixe a lenha
da lenha a casca
da casca a lança
AVANÇA
Por cima da árvore
Por baixo da ponte
Por cima da casa
Por cima da brasa
Por baixo daterra
Por cima da estrela
Por baixo da serra
Por cima do carro
Por cima do barro
Por cima
Por baixo
Por cima
AVANTE
AVANÇA
LEVANTE
LEVANTA
Levanta a mão
A mão na faca
A faca de aço
Por baixo por cima
ATACA
Atravessa o rio
ATACA
por baixo por cima
por cima
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}
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r>
por baixo
no alto do monte
SALTA
avante levante
AVANÇA
levante
LEVANTA
Na fenda do monte na fonte fendida
Na forma do lago na água retida
Na pomba voante na polpa do figo
No gomo da fruta no azedo do trigo
No arco sem flexa na senda selvagem
No brilho da relva no avesso da vagem
No cêrco da ilha na ponte perdida
No lance do dardo na queda suicida
No salto da cabra no óleo fervente
No tiro certeiro no gesto clemente
No pano rasgado na pólvora clara
Na gema vermelha no segue e no pára
No gesto contido no ser delirante
No passo retido na bala volante
No sôpro inventado no invento medido
Eu volto a dizer e sempre repito
A vida é um gesto terrível e aflito
No canto que raiva no pranto no grito
No ferro do parto na dor lancinante
No feito desfeito no peito cantante
No nervo exposto no fêmur fendido
No verbo de guerra no frnt inimigo
No berço da lama na cama da morte
No têrço da reza na esteira do norte
No rumo perdido no sal do deserto
Noturno gemido agora mais perto
No túmulo podre cadáver sepulto
Arcanjo da guarda temor e tumulto
Fagote do inferno aviso e proclamo
Será muito breve janeiro do ano
A sombra animal raiando o horizonte
Secando os mares ferido bizonte
Comendo os verdes por dentro e por for a
Fervente de lava lavando a aurora
Com gases do enxofre estrôncio noventa
Cidadse ruindo a morte que venta
O sôpro demônio os deuses em fúria
O choro o grito pungente lamúria
Doendo na voz comendo a garganta
O câncer no páncreas a garra que espanca
Terror que se instala o pânico vivo
O homem na gruta animal primitivo
O invento da roda o invento do fogo
Invento da corda invento do jogo
Invento da flor invento da fala
Invento do amor da gema e a clara
Debaixo da terra acima da árvore
A unha sangrando o vôo do alarme
Caminho da história se abre com a mão
Da mãe para o filho abraço do irmão
Abraço do amigo e ato envolvente
Invento da flor invento da fala
Invento do amor da gema e a clara
Debaixo da terra acima da árvore
A unha sangrando o vôo do alarme
Caminho da história se abre com a mão
Da mãe para o filho abraço do irmão
Abraço do amigo e ato envolvente
A água mais fria na água mais quente
Fazer harmonia da gente com a gente
Fazer nostalgia doença e doente
Do sonho com a vida da vida com o anjo
Do anjo mais flauta viola que tanjo
Do tango com a valsa da valsa e do fax
Do fox e do sax da dança e do box
Do ritmo puro impuro instrumento
Pensando o pensado mais o pensamento
Girando girando total liberdade
Na fala do homem maldade bondade
No sopro divino fazendo o diabo
O diabo no céu um deus no inferno
Passado e presente no tempo moderno
É
o travo nos dentes
Guerreira
É
o trevo das coxas
Guerrilha
É
o grito no canto
Guerreira
É
o canto da guerra
Guerrilha
É
o roxo acalanto
Guerreira
É
o perdão de joelho
Guerrilha
É
o seio azul
É o risco vermelho
É a varanda do gesto
É o braço aberto
É o fuzil da voz
É o tiro no sol
É o gato no salto
É a ave no pouso
É a praia na chuva
Guerreira
É o grito na tarde
Guerrilha
É
o grito no vôo
Guerreira
É
o pátio de pedra
Guerrilha
É
o sino na aurora
Guerreira
É
a raiva no alto
Guerrilha
É
o sal da manhã
guerreira
é
a gaivota na prai
guerrilha
é
a granada na mão
guerreira
é
Bethânia
guerreira
guerrilha
É
um canto é um grito é um povo é uma luta
É um fogo é uma chama é uma flor é uma fruta
É um tempo é uma data é uma dor é um lamento
É uma idéia é uma luz é um sonho é um invento
É uma força que surge é martelo que malha
É uma faca é granada é fuzil é metralha
É um povo que canta é um samba é um hino
É
mulher é amigo é um doce menino
É gaivota baixando e tornando a voar
É Bethânia cantando na beira do mar
Sob
a túnica o corpo
Que
se arrasta
já sob a túnica
Que se arrasta
O
suor encharca os poros do corpo
Sob a túnica
Que
se arrasta
Entre
as coxas
A graxa de suor e terra amacia os movimentos
Enquanto lixa a pele
Entre as coxas
Cauteloso o corpo
Que
arrasta
Avança sobre o corpo do chão
Quando a lama de suor e terra
Já transpassou a túnica e forma
Entre a túnica e o chão Em óleo granulado
Pouco a puoco a túnica
Que
se arrasta
Se
esgarça corroída pelo atrito macio
Todavia corrosivo
Agora a túnica é um trapo
Rastro no caminho percorrido
Pelo corpo
Que
se arrasta
Agora
entre o chão de navalha
E o corpo
Que
se arrasta
Nada
existe
Seco o suor o chão aumenta sua árida lâmina
E lixa a pele dos seios e do abdomem
Das coxas e da alma
Que
se arrasta
O
terreno minado vai sendo apalpado
Palmo a palmo
Pela palma da mão com seus olhos em sangue
O inimigo contempla estarrecido aquele corpo
Que
se arrasta
Entre
suas fileiras
Aquele corpo
Que
se arrasta
Pela
avenida central
O povo das ruas olha esterrecido
O suor o sangue e a terra recobrem o corpo
Que
se arrasta
E
quando chega a primavera
Um musgo verde começa a brotar
Na fértil epiderme
E entre o musgo já se nota
O colorido amarelo e vermelho
Que
se alastra
De
vigilantes flores explodindo
o
corpo teu
erguido
de manhã
bandeira
no horizonte
guerreira
guerrilha
guerrilheira
Reynaldo Jardim
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