Poema :.Reynaldo Jardim
   

 

 

Não se canta no escuro

no silêncio do quarto
sob o luar na praia
no vazio

mulher que fôr assim

plena mulher feita de mil tensões

Mulher que fôr assim

Bethânia tôda

canta-se no palco

onde se nua estivesse já veríamos
entre os seios azuis
um tormentoso rio

Aqui te canto

para fazer de tua bôca um canto
o teu canto
na tua rude voz áspera e rouca
onde os dentes se travam
onde o ácido gôsto de teu canto ácido
nada tem de doce ou amargo

Aqui te canto

a revolta de tua raiva e beijo
as duas mãos espalmadas
teu pulso e o pulsar de teu pulso
esse mar se alarga de mão a mão
gesto distendido e elástico

Aqui te beijo
Aqui te canto
Aqui te peço

que entre minhas mãos se entregue
êsse feixe de tensões
o corpo teu
erguido de manhã
plantado no horizonte
guerreira guerrilha

Aqui te canto

guerreira
guerrilha

Venha dormir conosco

guerreira
guerrilha

e nos incita

guerreira
guerrilha

e nos ensina

a fôrça de tua juventude
aberta e alegre
guerreira
guerrilha
e nos ame quando for de manhã e tudo parecer
guerreira
guerrilha

e tudo perdido
Ao duro canto teu nos ergueremos

guerreira
guerrilha

serás nossa bandeira

guerreira
guerrilha

e nossa pomba
Aqui te canto
e aqui te vejo

flor armada

pomba alçada em vôo

guerreira
gerrilha

De metal e nostalgia

guerrilheira

faço a rêde de teus nervos

Serena de emoção ei-la sem susto
contemplando a ternura que a envolve:
os olhos mais argutos esquadrinham
o objeto do amor em vez de amar-se

De revolta e alegria

guerrilheira

teço o pranto de teus erros
de saudade e rebeldia
armo a glória de teus mêdos

Serena de emoção ela se sabe
eterna a antiga em sua juventude:
em vez de responder ou respondendo
se afasta do corpo e dobra a alma
para ver onde vai o que pretende
a própria alma e corpo sob a mira
do olhar: tormento que vê sem mira
a coisa vista com os pensamentos

De pudor e água fria

guerrilheira

risco o mapa de segrêdo
de inferno e fantasia

guerrilheira

abro a porta enquanto cêdo

Reencontro de infância: amor primeiro
flor renascida na adolescência: canto:
deslumbramento matinal: insepulta
lembrança amanhecida: certo constrangimento:
a inibição e o espanto: o espanto esmaecido
e anunciando a iniciação do amor quando já sabe
a duração efêmera do ciclo ameaçado:
e o perigo de amor quando a ternura
já não pode tolher o mêdo e o susto

De tragédia enquanto é dia

guerrilheira

enche a noite de torpedos
de chumbo e melodia
calço as luvas de teus dedos
de azul e ventania
abro as velas dos cabelos
de seda e artilharia
organizo teus brinquedos

Amar e perder no gesto de amor o terno amor
e ver se desmanchando entre as mãos
a essência do carinho e o movimento para além
frustar-se no efêmero: amar e ganhar tênue quase amor
o instante de eterno:a a permanência:
memória juvenil onde se grava
a glória agora de ver a vida clara

Te lanço nessa aventura

guerrilheira

bem vestida e preparada
com a alma bem nutrida
com a cara bem lavada
com a fúria bem contida
com as unhas afiadas

Nesse plano de tempo onde nos pomos
fímbrias de azul asa sem vôo
Amor sem posse: o desconhecimento
de quem somos canta e torna a ser espanto
Por não ser quase nada sendo tão intenso
Imenso não imenso: um pouco o desvario
De ocupar no coração vazio a dimensão do tédio:
Algum rancor contido: amor inexistido
Flor de aragem: mas como pulsa e dói
Não ver além do encontro o teu rosto sorrir
E o beijo sendo entrega não trazer
Além do beijo em si resposta alguma

Te lanço nessa aventura

Guerrilheira

No sentido da vitória
Com a história bem sentida

Guerrilheira

sentindo o peso da história
A história da nossa gente

Guerrilheira

gente de amarga história

A te perder construo no momento
A eterna duração sem sofrimento
É por aqui senhores que se entra
No amaro verbo ser quando se é

Despede de tua mãe
Um adeus sem oratória

Enquanto a criança brinca
A morte espreita

Não chamemos de pórtico à cancela
Por onde entra o homem não a fé

Beija a cara de teu pai
Pai adeus eu vou me embora

Enquanto a criança inventa
Não suspeita
Que a morte com sua côrte
Fome tifo maleita
Oculta na sombra densa
Aguarda espera espreita

Aqui se canta o mar dos abdomens
Das coxas desvairando: da maré
Subindo a tensão de cem mil homens
Comendo anjos que julgam mulher

Diz "até" pro teu irmão
Que te deseja vitória

É insuportável saber
Que de minuto em minuto
Sopra o vento tomba o fruto
A morte com seu cortejo
Sorri satisfeita

Aqui se fala do útero florindo
o outono licitante as escamas
Os mísseis florescendo nas campinas
Germinando em mulheres pela cama

Abre bem o coração
Na hora da despedida
Ao passar pelo portão
Você deixa meia vida

A morte já não espreita
Ataca a morte ataca
Ataca
Tocando sua matraca
Insuportável matraca
Ceifa

Ou não se canta o homem antes se mostra
De sua eternidade quase tônica:
Se prova deus comendo o sol do inverno
Se mostra o vivo fúria catatônica:
Se canta e prova da eternidade
Explodindo explosão estereofônica

Controla tua emoção
e caminha decidida

Insatisfeita ceifa
Insaciável ceifa

Explodindo explosão estereofônica

Tua mãe chora escondida
Você finge que não viu

Nordeste? Vietcong?
Não: aqui do nosso lado
Em frente à esquerda à direita

Aqui se mostra: ao ar irrespirável
O corpo resistência tal levanta
Que para silenciá-lo nada existe
A não ser a vontade de ser triste

Você beija a boneca
Ela finge que não viu

Com sua côrte amarela
Favela
A morte já não espreita
Ataca ceifa
A morte com sua côrte
De fome febre maleita
Ataca morde pisa e ceifa

A não ser a vontade de ser planta
O não ser da vontade de ser morto
Mas quando o corpo fala a vida canta

Você monta seu cavalo
Sem esquecer seu fuzil
O fuzil de tua voz
Tem jeito de ser brasil

Assim quando se arma
De foice um braço

Assim quando se ama
De amor um abraço

Assim quando se doma
Um fuzil na trincheira

Assim quando se toma
De carinho uma fêmea

Assim quando se morde
Um cachorro no front

Assim quando se beija
A criança na fronte

Assim quando se avança
Algo além do perigo

Assim quando se pasta
Entre os seios e o umbigo

Assim quando se junca
O chão de cem mil bombas

Assim quando se chama
A vagina de pomba

Assim quando a fuga
Tem o gosto de vaia

assim quando se fere
A mão por sob a saia

Assim quando se come
No rim a faca acessa

Assim quando se janta
A moça sobre a mesa

Assim quando se tenta
Surpreender o inimigo

Assim quando o amor
Vale mais se ferido

Pacífica armadilha o sol levante

Aventura aberta
A sorte te valha

Um levante de garras silencie

o fogo do sonho
não é fogo de palha

A usura do tempo a alto juros

Tem o corte sêco
De sêca navalha

Cobrada por quem não vivencie

No capim mimoso
O fogo se espalha

Os golpes do presente nos futuros

Tece o labirinto
De estreita malha

Os futuros nos golpes galopantes

A trama medida
Não aceita falha

Os galopes de sangues sobre muros

Se o caminho é longo
A vereda atalha

Os muros recobertos de meus sangues

O fogo do sonho
Não é fogo de palha

Os sangues escorrendo por mil furos

No corpo se tem

A melhor arma

Os duros saques nos fazendo exangues

O ar do pulmão
A mão fechada

Pacífica exploração de mil granadas

O impulso do pé
A fé raivosa

Arme no temporal tal armadilha

A prosa da boca
O lábio selado

Para nelas cair bois em manadas

A dívida paga
Na faca dos dentes

Presa nas praias de fundidas ilhas

O urgente fogo
No esôfago aceso

Que se mordam quermesses desvairadas

O preço do gesto
No acesso do tiro

Sobre guerreiros mortos em guerrilhas

O sentido do olho
No molho do sangue

Caia teu corpo o corpo mergulhando

O enxague corpo
Torto na trincheira

No fundo de tuas próprias armadilhas

A fieira dos nervos
Acesoa no arsenal

Mulher de mil paixões desarvoradas

O quintal do ventre
Entre a glória e o pasto
O casto siléncio
No incêndio do açúcar
O azul do carbono
No sono em vigília
O dia nos ombros
O peso das coxas
O sal dos tecidos
Retido na pele
O leque da mão
Rápido no golpe
O fole dos brônquios
Contido no salto
No alto do corpo
O cérebfo frio
Que risca o fósforo
E acende o pavio
No segundo exato
Em que a vida pende
Depende
Da ponta de um fio

No fundo de tuas próprias armadilhas
Mulher de mil paixões desarvoradas
Trincheira de napalm entre as virilhas

A flor na mão
Ela arma e trama seu caminho
A mão no corpo
Ela traça em azul o seu carinho
O corpo no barco
0 barco no porto
ela rasga os enfeites do vestido
o porto no rio
o rio na mata
ela passa o uniforme azul-marinho
a mata na terra
a terra na vala
a vala no ventre
o ventre no limo
ela força as portas do sentido
ela dobra a bandeira feita de linho
ela segue rasteira feita em tigre
ela morde o veneno que a morde
ela acende o fogo e se dissolve
ela adentra a amata mais tranqüila
o limo no sol
o sol na pupila
a pupila no alvo
o alvo na alma
a alma no salto
ela reza a oração mais primitiva
ela ensina a lição de amor à pátria
o salto na moça
a moça na água
a água na fronte
a fronte no chão
o chão no pomar
ela dança o ritual da guerra santa
ela fala a canção que fala em greve
ela monta o corcel feito uma fada
ela é todo um batalhão em marcha lenta
o pomar na praia
ela inventa um bélico acalanto
a praia no mar
o mar na areia
a areia no olho

ela sente que o inimigo se aproxima
o olho no vulto
o vulto no bosque
o bosque na sombra
a sombra no medo
ela grita aos homens que debandem
ela é presa e mordida por abutres
ela explode o corpo em mil pedaços
ela atira mil tiros de granada
ela é toda uma explosão estereofônica
ela assusta os abutres que a cercam
o medo no pasto
o pasto no monte
o monte no campo
ela é toda um clarão que ofusca e mata
ela é toda a canção que anima e empolga
ela é toda um regimento adestrado
ela é o hino cantado que se canta
ela ordena e o povo se levanta
ela articula o jogo das estrelas
ela fabrica o esqueleto do invasor
o campo de luz
da luz um feixe
do feixe a lenha
da lenha a casca
da casca a lança
AVANÇA

Por cima da árvore
Por baixo da ponte
Por cima da casa
Por cima da brasa
Por baixo daterra
Por cima da estrela
Por baixo da serra
Por cima do carro
Por cima do barro
Por cima
Por baixo
Por cima

AVANTE
AVANÇA
LEVANTE
LEVANTA
Levanta a mão
A mão na faca
A faca de aço
Por baixo por cima
ATACA
Atravessa o rio
ATACA
por baixo por cima
por cima

r> por baixo
no alto do monte
SALTA
avante levante
AVANÇA
levante
LEVANTA
Na fenda do monte na fonte fendida
Na forma do lago na água retida
Na pomba voante na polpa do figo
No gomo da fruta no azedo do trigo
No arco sem flexa na senda selvagem
No brilho da relva no avesso da vagem
No cêrco da ilha na ponte perdida
No lance do dardo na queda suicida
No salto da cabra no óleo fervente
No tiro certeiro no gesto clemente
No pano rasgado na pólvora clara
Na gema vermelha no segue e no pára
No gesto contido no ser delirante
No passo retido na bala volante
No sôpro inventado no invento medido
Eu volto a dizer e sempre repito
A vida é um gesto terrível e aflito
No canto que raiva no pranto no grito
No ferro do parto na dor lancinante
No feito desfeito no peito cantante
No nervo exposto no fêmur fendido
No verbo de guerra no frnt inimigo
No berço da lama na cama da morte
No têrço da reza na esteira do norte
No rumo perdido no sal do deserto
Noturno gemido agora mais perto
No túmulo podre cadáver sepulto
Arcanjo da guarda temor e tumulto
Fagote do inferno aviso e proclamo
Será muito breve janeiro do ano
A sombra animal raiando o horizonte
Secando os mares ferido bizonte
Comendo os verdes por dentro e por for a
Fervente de lava lavando a aurora
Com gases do enxofre estrôncio noventa
Cidadse ruindo a morte que venta
O sôpro demônio os deuses em fúria
O choro o grito pungente lamúria
Doendo na voz comendo a garganta
O câncer no páncreas a garra que espanca
Terror que se instala o pânico vivo
O homem na gruta animal primitivo
O invento da roda o invento do fogo
Invento da corda invento do jogo
Invento da flor invento da fala
Invento do amor da gema e a clara
Debaixo da terra acima da árvore
A unha sangrando o vôo do alarme
Caminho da história se abre com a mão
Da mãe para o filho abraço do irmão
Abraço do amigo e ato envolvente
Invento da flor invento da fala
Invento do amor da gema e a clara
Debaixo da terra acima da árvore
A unha sangrando o vôo do alarme
Caminho da história se abre com a mão
Da mãe para o filho abraço do irmão
Abraço do amigo e ato envolvente
A água mais fria na água mais quente
Fazer harmonia da gente com a gente
Fazer nostalgia doença e doente
Do sonho com a vida da vida com o anjo
Do anjo mais flauta viola que tanjo
Do tango com a valsa da valsa e do fax
Do fox e do sax da dança e do box
Do ritmo puro impuro instrumento
Pensando o pensado mais o pensamento
Girando girando total liberdade
Na fala do homem maldade bondade
No sopro divino fazendo o diabo
O diabo no céu um deus no inferno
Passado e presente no tempo moderno

É o travo nos dentes

Guerreira

É o trevo das coxas

Guerrilha

É o grito no canto

Guerreira

É o canto da guerra

Guerrilha

É o roxo acalanto

Guerreira

É o perdão de joelho

Guerrilha

É o seio azul
É o risco vermelho
É a varanda do gesto
É o braço aberto
É o fuzil da voz
É o tiro no sol
É o gato no salto
É a ave no pouso
É a praia na chuva
Guerreira

É o grito na tarde

Guerrilha

É o grito no vôo

Guerreira

É o pátio de pedra

Guerrilha

É o sino na aurora

Guerreira

É a raiva no alto

Guerrilha

É o sal da manhã

guerreira

é a gaivota na prai

guerrilha

é a granada na mão

guerreira

é Bethânia

guerreira
guerrilha

É um canto é um grito é um povo é uma luta
É um fogo é uma chama é uma flor é uma fruta
É um tempo é uma data é uma dor é um lamento
É uma idéia é uma luz é um sonho é um invento
É uma força que surge é martelo que malha
É uma faca é granada é fuzil é metralha
É um povo que canta é um samba é um hino

É mulher é amigo é um doce menino
É gaivota baixando e tornando a voar
É Bethânia cantando na beira do mar

Sob a túnica o corpo

Que se arrasta
já sob a túnica
Que se arrasta

O suor encharca os poros do corpo
Sob a túnica

Que se arrasta

Entre as coxas
A graxa de suor e terra amacia os movimentos
Enquanto lixa a pele
Entre as coxas
Cauteloso o corpo


Que arrasta


Avança sobre o corpo do chão
Quando a lama de suor e terra
Já transpassou a túnica e forma
Entre a túnica e o chão Em óleo granulado
Pouco a puoco a túnica

Que se arrasta

Se esgarça corroída pelo atrito macio
Todavia corrosivo
Agora a túnica é um trapo
Rastro no caminho percorrido
Pelo corpo

Que se arrasta

Agora entre o chão de navalha
E o corpo

Que se arrasta

Nada existe
Seco o suor o chão aumenta sua árida lâmina
E lixa a pele dos seios e do abdomem
Das coxas e da alma

Que se arrasta

O terreno minado vai sendo apalpado
Palmo a palmo
Pela palma da mão com seus olhos em sangue
O inimigo contempla estarrecido aquele corpo

Que se arrasta

Entre suas fileiras
Aquele corpo

Que se arrasta

Pela avenida central
O povo das ruas olha esterrecido
O suor o sangue e a terra recobrem o corpo

Que se arrasta

E quando chega a primavera
Um musgo verde começa a brotar
Na fértil epiderme
E entre o musgo já se nota
O colorido amarelo e vermelho

Que se alastra

De vigilantes flores explodindo

o corpo teu
erguido
de manhã


bandeira no horizonte

guerreira

guerrilha

guerrilheira

                                                           Reynaldo Jardim

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