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Não tenho preconceitos. Canto o que me toca

Maria Bethânia é uma mulher ímpar. Uma cantora ímpar também. De uma teatralidade que é somente sua. De um gosto que é tão seu - como o apreço, por exemplo, por pitombas - mas que não pode ser exclusivamente seu, porque o mesmo dos fãs ardorosos, das fãs inclementes, e vice-versa. Com uma personalidade firme, que não se entrega a caprichos que não seus, impõe ao bom gosto mais elitista as canções da Jovem Guarda e o romantismo sertanejo de É o Amor, no momento em que mais eram criticados. É dela A Força que Nunca Seca, o disco e o show, que apresenta apenas hoje, no Teatro Guararapes. 

Quando foi lançado o disco A Força que Nunca Seca, você preferiu distribuir à imprensa um CD entrevista a falar diretamente com os jornalistas. Qual a razão disso, você tem algum receio em falar com jornalistas? 

Não tenho receio algum em falar com ninguém. A decisão em distribuir o CD foi dos marketeiros da gravadoras, quem determina essa parte são eles. No meu trabalho, faço apenas escolher as músicas, os compositores e os arranjos. 

Em televisão, é notório que você não gosta de se apresentar de jeito algum, não é mesmo? 

O problema é que no Brasil não existem programas para cantores. O que há são programas de variedades que abrem espaço para um cantor ou outro se apresentar. A Hebe e o Faustão sempre me convidam, são muito gentis comigo. Além disso, em televisão, tem um diretor para controlar cem milhões de pessoas: apresentador, câmeras, auditório, atrações. Por essa razão, todo mundo acaba gritando o tempo todo. Eu estudei teatro na Bahia, minha formação é teatral, não é de televisão. Mas eu faço todos os programas de entrevistas que me convidam. 

Por falar em gritar, é verdade que você briga muito com os donos das gravadoras em que trabalha? 

Não, eu não brigo com eles porque são pessoas que tenho apenas um contrato de trabalho. Quando não estou satisfeita deixo tudo e pronto, posso fazer isso muito bem. Eu só brigo mesmo com meus amigos, que são pessoas com quem tenho relação. Não brigo com quem não tenho uma relação. Com inimigos, muito menos, porque só tenho uma relação com amigos. E eu vou lá ter brigas com inimigos, não perco tempo com isso. 

Após Âmbar, que foi um disco urbano, você fez um show e um CD voltados para o interior do Brasil, qual a razão dessa virada? 

Realmente, Âmbar é um disco urbano, sou apaixonada pelo Rio de Janeiro, é uma cidade simplesmente linda. Fiz esse trabalho porque sou uma interiorana, sinto falta desse meu bucólico. Eu quis fazer um disco inteiramente diferente, não sou uma caretinha. E, ao contrário dos shows mais recentes, esse não é tão romântico assim. 

No show e no CD, existem duas canções que chamaram a atenção das pessoas, Carcará, que você voltou a cantar, e É o Amor, que é uma música de Zezé di Camargo. 

Em primeiro lugar, vamos deixar bem claro para todo mundo que não tenho problema algum com Carcará, essa é a música da minha carreira. Além disso, eu louvo o João do Valle (compositor da música). O problema é que não posso continuar cantando sempre as mesmas músicas, quando a gente tem um repertório tão grande de canções. Não posso, por exemplo, em todo show cantar Explode Coração. Em relação a É o Amor, tenho de dizer que essa não é uma música sertaneja, mas sim uma canção romântica. É uma música tão boa quanto muitas de Gonzaguinha. Eu canto as coisas que me tocam, sou bastante sincera em relação à minha música. 

Em relação a cantar Zezé di Camargo, você fez uma coisa parecida antes na sua carreira: foi você quem levou as músicas da Jovem Quarda, que carregava o rótulo de ser um movimento alienado, para Caetano Veloso. 

Exatamente, não tenho preconceitos, canto o que me toca. 

Quando lançou o seu novo show, em que canta Tom Jobim, Gal Costa fez um comentário dizendo que você é só emoção na voz, e Elis era só técnica. E dessas duas cantoras, aqui no Brasil, ela era a quem melhor fazia um meio termo entre a técnica e a emoção. Qual a sua opinião a esse respeito? 

Em primeiro lugar, para mim, a técnica também é muito importante. Mas eu acho esse comentário da Gal lindo, é tudo o que tenho a dizer. 

E por falar no lado emocional, que a Gal comentou, você tem uma entrega muito grande como intérprete e escolhe as letras das suas músicas com um grande critério. Você procura cantar sempre dentro do que viveu? 

Não, de forma alguma. Eu, como intérprete, empresto minha veia de atriz a essas letras. É lógico, que sempre procuro colocar um pouco da minha própria experiência quando canto. 

É muito comentada a força que você tem no palco. Qual a diferença da sua interpretação em CD e em show? 

É completamente diferente o palco do disco. Acho que as pessoas comentam isso porque o CD é completamente cego, já o palco tem a presença do artista em cena, tem a emoção. 

Muitos artistas costumam reclamar do assédio da imprensa, que os impede de ter uma vida particular. Como você costuma se defender do assédio da imprensa? 

Não faço muito esforço para isso. A única coisa que a fama me deu foi a possibilidade de me comunicar com meu público. O meu ofício é cantar e não ficar me defendendo. Eu não costumo sair para badalações de qualquer tipo. Quando não vou a algum lugar é pela simples razão de não querer ir, quando vou é a mesma coisa. Não me preocupo com o assédio, quem quiser falar alguma coisa que fale. 

Após ter feito 50 anos, qual foi a maior lição que você aprendeu? 

Foi que o que mais importa é o respeito pelo outro, temos de nos respeitar sempre e respeitar o próximo. Isso aqui não é uma ilha. Alguns abrem os braços para as pessoas, outros fecham os braços. Eu prefiro abrir.

SCHNEIDER CARPEGGIANI 
Jornal do Commercio
Recife - 28.09.99