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Maria Bethânia comemora 50 anos com ótimo Âmbar e ganha de presente composições inéditas da nova geração da MPB
A cantora Maria Bethânia, 50 anos e 32 de carreira, possui uma frase lapidar: “Canto o que quero, como quero e quando quero.” Com uma trajetória de mais de 20 milhões de discos vendidos, a baiana sempre seguiu à risca esta postura que faz dela uma das intérpretes mais radicais da MPB. No ano passado, devido à expressiva vendagem de 700 mil cópias do romântico
As Canções Que Você Fez Pra Mim, lançado em 1993, só com sucessos de Roberto e Erasmo Carlos, a Polygram, sua antiga gravadora, queria que ela gravasse uma antologia de boleros. Bethânia preferiu registrar ao vivo o show do disco com o qual viajou pelo país e rompeu o contrato.Agora, encabeçando o cast da EMI, ela chega às lojas com
Âmbar, um CD brilhante que mais uma vez ilustra sua profissão de fé.
O recém-lançado trabalho da baiana é surpreendente, a começar pelo repertório. Das 14 faixas, oito são da nova safra de compositores da MPB. Rigorosa em sua escolha, Bethânia contraria a tese de que não existe grandes revelações na área. Empresta seu estilo pessoal e depurado a criações de Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Orlando Morais, Chico César e Adriana Calcanhoto, que assina a belíssima faixa título do disco, e a não menos inspirada
Uns Versos. Á Primeira vista, esta reunião de jovens pode parecer díspar. Mas a voz majestosa de Bethânia sempre encontra o sentimento de canções as mais diversas, realizando o milagre da transfiguração, privilégio das grandes intérpretes. Segura, ela imprime sua marca em cada faixa. O resultado é um disco de unidade irrepreensível.
São músicas feitas sob medida para Bethânia cantar. O paraibano Chico César, por exemplo, enviou à cantora cinco composições. Ela ficou com duas, a toada
Onde Estará o Meu Amor, e a afro Invocação, cuja letra original pede a Deus para “mostrar teu dedo, tua bunda, tua face.”Religiosa, Bethânia atenuou o tom sacrílego da canção, trocando a palavra “bunda” por “língua”. A melhor surpresa, porém, vem de Carlinhos Brown. Distante do batuque revolucionário que o revelou, o baiano comparece com a serena
Allez y e a bossa nova Lua Vermelha, parceria com Arnaldo Antunes, que homenageia Luis Gonzaga.
Além de avaliar o trabalho de novos compositores, Bethânia se manteve fiel à sua tradição. Em suas palavras, só agora se sentiu com autoridade para gravar a antológica
Chão de Estrelas, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, embalada, como a maioria das outras faixas, por um luxuoso arranjo de cordas. Outro mergulho no passado é o samba
Quando eu Penso na Bahia, de Ary Barroso e Luis Peixoto, gravado num divertido duo com Chico Buarque. O parceiro não criou nada novo para Bethânia, mas de Caetano Veloso ela gravou
Eterno Em Mim, música antiga que ela guardava na gaveta. Satisfeita com a colaboração dos jovens, Bethânia não lamenta a pequena oferta da sua dupla de compositores preferida. “A música brasileira não é feita só por Chico e Caetano”, afirma. “Eles são geniais, mas há músicos por aí fazendo coisas maravilhosas.” O bem-sucedido
Âmbar é uma prova disto.
Ivan Cláudio
Revista Isto É
06/11/96
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