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A chegada de 2001 no trecho entre o Farol da Barra e o Morro do Cristo aglomerou mais de 800 mil pessoas, numa celebração pacífica e emocionante. Mais uma vez, o povo baiano fez a festa no seu espaço preferido: o meio da rua. No maior e mais badalado Reveillon de Salvador, patrocinado pela prefeitura através da Emtursa, em parceria com o governo do estado, um gigantesco formigueiro humano acompanhou a programação de shows com uma impressionante tranqüilidade
Antes de o último sol do milênio ter ido embora, um grupo de pescadores fez a derradeira puxada de rede do século XX nas águas da Barra, não com o objetivo de fisgar peixes, mas sim para reafirmar a força de uma tradição popular. Até que a noite chegou, acompanhada pela voz doce de Gal Costa. No palco de tema futurista, armado em frente ao Forte de Santo Antônio da Barra, no Farol, foram montados um telão redondo de retroprojeção de cenas e um globo terrestre na base. Nas laterais, duas ampulhetas com 6m de altura simbolizaram o tempo e a chegada do novo milênio. "Vocês estão gostando? Um beijo no coração de cada um", acarinhou Gal, bem à vontade, desejando à platéia um ano novo com paz e dinheiro.
Depois de interpretar um repertório de pérolas como Aquarela do Brasil, Baby, Folhetim, Garota de Ipanema e
Chega de saudade, a cantora baiana fez um Carnaval à sua maneira, recordando a marchinha
Balancê e se despedindo com Festa no Interior. O público adorou. Um rápido intervalo e o clima carnavalesco prosseguiu ao som da Banda Feminina Didá, dessa vez com algumas músicas candidatas a hino na próxima folia.
Gil e Bethânia
- Às 22h05, Maria Bethânia e Gilberto Gil chegaram ao palco fazendo duo na música
Fé cega, faca amolada e desfilando um roteiro musical de primeira linha. "Quando o sol se põe, vem o farol, iluminar as águas da Bahia", cantou Gil, celebrando o
Farol da Barra. "Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo", saudou Bethânia em
Emoções, debaixo de aplausos calorosos de uma platéia cada vez mais numerosa. O afoxé
É D'Oxum, com o baianíssimo suporte ao vivo da percussão do Olodum, e o samba
O que é O que é, de Gonzaguinha, encerraram, em alta, a apresentação.
O momento mais aguardado da noite foi também o mais arrepiante. Eram 23h50 e o palco já estava tomado por Gilberto Gil, Xandy, os músicos do Harmonia do Samba, Olodum, Irmandade do Divino Espírito Santo e dezenas de baianas tipicamente trajadas. Maria Bethânia não voltou para a contagem regressiva. "Ela é muito religiosa. Deve ter preferido se recolher para fazer seu próprio ritual", supôs um entusiasmado fã. Mas, no alto do camarote, dona Canô e o filho Caetano Veloso não tiraram os olhos do palco. Nem do céu iluminado.
Marcos Uzel
Correio da Bahia
02/01/00
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