|
Rosa dos Ventos - O Show Encantado é uma obra paradigmática. Ao mesmo tempo em que revela a dimensão e a complexidade artísticas dos longínquos anos 70 e dá novo lustro e compreensão à carreira de Maria Bethânia (1946), ela expõe a realidade monocromática da produção discográfica brasileira dos últimos 20
anos.
Registro do show homônimo realizado no Teatro da Praia (RJ) em julho de 1971 e dirigido pelo amigo e parceiro Fauzi Arap, Rosa dos Ventos é um dos pontos de inflexão da irregular trajetória musical da baiana que sonhava em ser atriz.
"Eu canto de acordo como meu momento. Se na boate quero mudar meu roteiro inteiro, eu mudo. Posso seguir o mesmo roteiro, mas cada dia faço uma loucura diferente. Em Comigo me Desavim [n.e. Primeiro espetáculo dirigido por Fauzi Arap, em 1967], eu fazia horrores em cena, dançava rumba, não cantava e ficava conversando duas horas seguidas. Seguia o texto, mas podia fazer em cima do roteiro, o que quisesse. O Boal nunca concordou e nunca me deixou fazer assim. Até Boal eu era uma cantora. De Fauzi Arap pra cá, sou outra", definiu-se certa vez ao pesquisador Zuza Homem de
Mello.
Vertido para disco naquele mesmo ano pela antiga Philips - com a assinatura do violonista bossa nova Roberto Menescal-, o show fotografa uma intérprete madura, livre dos movimentos artísticos da época e dona de uma liberdade interpretativa incomum.
"Nem morta eu presto atenção ao acompanhamento! Eles têm que ir atrás de mim e me acompanhar, têm que estar dentro de mim .Podem tocar tudo errado, mas se estiverem no embalo comigo e me acompanharem mesmo, eu acho
maravilhoso".
Digerindo um repertório diverso - de boleros, frevo e baião a sambas carnavalescos e temas de candomblé -, petiscado com declamações poéticas, Rosa dos Ventos resultou da fermentação dos LPs ao vivo
Recital na Boite Barroco (1968), Maria Bethânia ao Vivo (1970) e
Vinicius + Bethânia + Toquinho em La Fusa (1971), e do elogiadíssimo
A Tua Presença (1971, o primeiro pela Philips).
Aproveitando-se de todos seus atributos cênicos exercitados em espetáculos sessentistas (destaque para Opinião, de 1965, quando substituiu Nara Leão e atuou ao lado de Zé Kéti e João do Vale), Maria Bethânia esquadrinhou um novo padrão de show. Com arranjos e acompanhamento do Terra Trio, Bethânia consagra sua voz teatral. Podendo ser dividido em 5 blocos, o espetáculo ampara-se em textos de Fernando Pessoa, Clarisse Lispector e Moreno, coloridos com canções filiadas à estes sentimentos declamados.
Essas colagens musicais festivas e tensas - como a sombria faixa de abertura "Assombrações" (Sueli Costa e Tito Lemos) com "O Tempo e o Rio" (Edu Lobo e Capinan), "Ponto de Oxum" (Toquinho e Vinícius de Moraes), uma poesia do português Fernando Pessoa (1888 - 1935), "O Mar (Canção Praieira)" e "Suíte dos Pescadores, ambas de Dorival Caymmi - projetaram a musa da canção de protesto (título que odiava e obtido com o sucesso de "Carcará", de João do Vale e José Cândido) num cenário artístico-musical carente dos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil (ainda exilados na
Inglaterra).
Da tristeza momesca do sambista baiano Batatinha ("Imitação" e "Hora da Razão", com J. Luna) à folia graciosa das cantigas de roda do folclore baiano; costurando com a mesma agulha diferentes tecidos sonoros ("Minha História", "Lembranças", de Raul Sampaio e Benil Santos, e "Rosa dos Ventos", de Chico Buarque), e viajando com o bolero de Gardel e Le Pera ("El Dia Que Me Quieras"), Bethânia mantém-se íntegra para revelar a harmonia entre canções de ambientações opostas.
Assessorada por autores no auge da criatividade, Bethânia completa-se com mais uma vez com Caetano Veloso ("Janelas Abertas Nº 2" e "Não Identificado"), Toquinho e Vinicius ("Flor da Noite") e Jards Macalé e Capinan ("Movimento dos Barcos"), despedindo-se com um texto de
Moreno.
Apesar de atualmente ser identificada como cantora de repertório popular - com várias investidas suspeitas como "É o Amor", hit inaugural da dupla Zezé Di Camargo & Luciano, gravado em A Força Que Nunca Seca (BMG, 1999) -, a irmã de Caetano Veloso é responsável, ao lado de Elis Regina e Ney Matogrosso, pela consolidação de uma nova estética de palco dos anos 70 e Rosa dos Ventos materializa sua identidade cênica.
Ricardo Tacioli
Somlivre.com.br
|