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::Entrevista

Sem Censura

Entrevista concedida em meados de 1998 ao programa Sem Censura, da TV Educativa, onde Maria Bethânia fala à jornalista Leda Nagle sobre a sua recente apresentação em Nova York e sobre o encerramento do show "Imitação da Vida", para começar o trabalho em um novo disco de estúdio.

Você acaba de voltar de uma apresentação em Nova York. A receptividade do público lhe surpreendeu? 

Aceitei participar do festival JVC apenas pelo fato de ele se realizar no Carneguie Hall. Quando menina, prometi a mim mesma que um dia iria me apresentar nos mesmos palcos onde eram usuais as apresentações de Edith Piaf e Judy Garland. Por diversas vezes, na França, pisei no mesmo palco que a Piaf, e chegou então o momento de realizar meu desejo, me apresentando no mesmo teatro que a Judy. 

Cantar na Europa pra mim é tão natural quanto cantar no Brasil. Nos Estados Unidos não. Eles se dizem os melhores em tudo que fazem, suas dimensões são sempre grandiosas, enquanto que o trabalho que faço é interpretativo e depende do entendimento, inclusive da nossa língua. Mas quando disseram que era no Carneguie Hall, por apenas um dia, decidi ir. 

A crítica foi muito generosa, se disse maravilhada com o seu show. 

Eu estava feliz por se tratar de uma realização pessoal. A platéia, que em 80% era composta de brasileiros, me comoveu. Já na minha entrada ocorreu a maior ovação. Cantei toda a canção "Rosa dos Ventos" com o público de pé. Brinquei com eles, e por várias vezes retornei ao palco para fazer o bis.

   Me apresentei nos Estados Unidos mas não fiz nenhuma concessão para isso. Todos os textos de Fernando Pessoa, essências ao show, foram mantidos. Foi ótimo estar lá, me sentir totalmente à vontade e ter meu trabalho reconhecido. 

E a receptividade do povo americano, como foi? 

Quando cheguei ao hotel, vi a bandeira brasileira hasteada e fiquei sem saber quem estava lá. O presidente não poderia ser, pois haveria o estardalhaço usual. Tinha de ser então alguém da área econômica. Perguntei ao gerente quem mais do Brasil estava hospedado naquele hotel e ele disse "Não há outra pessoa. A bandeira está hasteada por sua causa".

Engraçado também foi a crítica americana ter feito uma comparação entre mim e a Edith Piaf. 

E agora você encerra a temporada de Imitação da Vida? 

Adoro esse show, ele me traz muita alegria. Estou a quase dois anos em cartaz e foi com ele que voltei a me apresentar por todo o Brasil. 

Pela primeira vez tornei a mesma praça para reapresentar um espetáculo. No Rio, foram três temporadas - incluindo a estréia e uma temporada popular. Mas está na hora de parar para conceber meu novo disco. 

Na temporada popular, a emoção da platéia era sentida no palco? Era comovente ver aquelas pessoas tão simples vestirem suas melhores roupas de domingo para ir ver Bethânia. 

E eles se sentiam muito á vontade. Alguns até se aproximava do palco e falavam comigo na maior naturalidade. Era um sonho antigo esse de fazer em temporadas populares o mesmo show que realizo nas grandes casas de espetáculo e no exterior. Para que isso fosse viabilizado, além do patrocínio, foi preciso que eu, os músicos e os técnicos abríssemos mão de nosso cachê. Em São Paulo, foram apenas duas noites, mas ao preço de cinco reais. 

Onde será o encerramento de Imitação da Vida

No Caneção, no Rio de Janeiro, que é uma cidade que eu adoro e onde vivo desde os 17 anos de idade. Depois disso, vou à Lisboa onde faço duas apresentações. 

Minha apresentação anterior em Portugal foi num anfiteatro de mil lugares, em um palco que ficava sobre o mar. Não havia paredes nem nada desse tipo, e entre mim e o público a separação se dava por uma faixa da água do oceano.Foi maravilhoso, mas faz um frio... (risos). 

Você entra em estúdio agora. Costuma participar de todas as etapas da produção de seus discos? 

O que sei fazer é escolher o repertório e cantar. Tenho que ouvir uma centena de fitas cassetes, que é a primeira etapa de minha criação artística. Ao ouvi-las, tenho um resumo musical de todo o Brasil e dá até pra perceber, pela influência que eles tem na composição, quais os intérpretes mais ouvidos em cada região do país. 

Pelo jeito, você gosta muito de ficar em casa e escolher seu repertório! 

Do mesmo modo que eu amo e preciso estar no palco, onde fico exposta, necessito também do silêncio e da privacidade. 

Comenta-se que você pretende trabalhar a temática da solidão do homem moderno em seu novo disco. É verdade? 

Essa é questão em que tenho pensado muito ultimamente. Me preocupa o fato de que o homem tende cada vez mais ao isolamento, que esteja sempre correndo e não se importe mais com o tempo e o espaço que tanto ele quanto o seu próximo necessita. O homem é o ser mais infeliz da atualidade. 

Não sei ainda se esse vai ser o fio condutor desse meu novo trabalho. Quero falar sobre a solidão, mas não fazer um trabalho específico sobre ela. Quero também temas que tenham ligação com a força e a alegria da terra. Para isso, pretendo recorrer a versos de Ascenso Ferreira e Guimarães Rosa. 

Como você vê os novos compositores da MPB? 

São taxados de novos compositores quando, na verdade, estão há anos na estrada. O Arnaldo Antunes é um deles. Faz muito tempo que compõe com os Titãs e agora está num trabalho solista de criação e interpretação onde tudo o que faz me é interessante. Acho o Arnaldo uma dos melhores acontecimentos da música nos últimos anos. Adriana Calcanhotto é outro valor, seu trabalho é chique e comovente ao mesmo tempo. O Chico também é assim. Chico César...o Buarque eu não preciso nem falar, faz parte de minha trilogia: Chico, Caetano e Fernando Pessoa. 

Temos nomes maravilhosos, como Nando Reis, Orlando Morais e Zeca Baleiro.Ontem recebi a fita de um rapaz chamado Miltinho que, após ouvir um pequeno trecho percebi que havia ali um trabalho criativo e com estilo próprio. E essas são as qualidades fundamentais para um artista.