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Bethânia opta pela solenidade em novo álbum

Maria Bethânia, 52, opta pela solenidade em seu novo disco, "A Força Que Nunca Seca". O peso conceitual, dessa vez, é o de integrar gravidade vocal e orquestral com temas em geral simples, quase sempre passíveis de ser classificados como "rurais" - até Zezé di Camargo e Luciano caíram em sua seara, na releitura de "É o Amor". 

O álbum aproxima-se, assim, de um híbrido entre seus dois CDs de estúdio anteriores, "Âmbar" (96), mais rítmico e alegre, e "As Canções Que Você fez Pra Mim"(93), todo dedicado ao repertório de Roberto e Erasmo Carlos. 

Se nos temas selecionados "A Força Que Nunca Seca" aproxima-se mais de "Âmbar", no tratamento beira o hiper- romantismo de "As Canções Que Você fez Pra Mim". O novo álbum é melancólico, romântico. Não se furta às vezes em se roçar no piegas. 

A dicotomia entre solenidade e simplicidade se refaz, à sua moda, o travo de "Livro" (97), em que seu irmão Caetano Veloso aproximava o jazz de percussões baianas.No caso dele, a preocupação é expor o paralelismo que pode haver entre chique e brega, talvez entre progressista e conservador, fio tenso em que ela sempre se equilibrou. 

Só aí cai bem, no mesmo espaço, o "Trenzinho Caipira" de Villa-Lobos e a "Romaria" de Renato Teixeira (inabitual incursão de Bethânia ao repertório de Elis Regina). 

O que isso significa, ainda, é o apreço de Bethânia pelo conceitual - é isso, afinal, que faz o diferencial entre ela e a outra monopolista do título de diva da MPB, Gal Costa. Se essa sai colhendo flores quaisquer no jardim das canções, aquela sempre escolhe com cuidado quais flores quer regar. 

"A Força Que Nunca Seca" acerta e falha nessa batalha. Se seu modo de interpretar continua garboso e seguro em standarts como "Trenzinho Caipira" e "Luar do Sertão" (clássico de Catulo da Paixão Cearense a que afinal ela se rende), seus arranjos orquestrais manjados arriscam torna-las banais. 

É na necessidade conceitual - se não de protagonista de sua carreira - que Bethânia se vê diante de "É o Amor". Há aí a gravidade de se provar sempre livre, amarrada por conceitos e desamarrada de preconceitos. 

Acontece que a balada sertaneja escapa do conceitual. Marca maior de ousadia, pode se tornar peça de marketing não só da causa de Bethânia, mas do presente CD. 

É pena , porque a releitura da grande intérprete é tão chata quanto o original da dupla mauricinha - e só não é mais chata que a discussão que a validade de sua existência pode causar. 

Pode, então, acabar obscurecendo a real discussão proposta pela artista. Para que essa seja fomentada, existem a tocante "Romaria" e a potência percussiva de "Não Tenha Medo" (do ainda desconhecido Niltinho Edilberto) - deve ser coincidência, mas é o mesmo nome de uma das poucas canções de Caetano que Elis cantou, em 1970. 

No todo, Bethânia atrai, sem pudores, o tradicional. É devido a sua existência que Carlinhos Brown (em parceria com Marisa Monte) pode entregar uma letra coerente, de "Eu Queria Que Você Viesse". Também por isso, "Cacilda", de José Miguel Winsnik, composta para a peça de José Celso, flerta muito diretamente com a ancestralidade dos "Lábios Que Beijei", de Orlando Silva (Cacilda Becker em versão masculina e musical?). 

Ainda nessa linha, "As Flores do Jardim de Nossa Casa"(69), de Roberto e Erasmo Carlos, perde a sensibilidade soul (antibrasileira) que tinha na origem, novamente a interpretação sendo prejudicada pela orquestração comum. 

Parece ser um momento específico da carreira de Bethânia. Ela já esteve mais despojada, aqui ressurge densa e pomposa - com tudo de favorável e contrário que isso possa conter. Como de hábito, é no show prometido para abril que as coisas devem ficar mais claras. 

Pedro Alexandre Sanches
Folha de São Paulo
27 de fevereiro, 1999

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:: Entrevista de Bethânia sobre o disco ::