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O dia em que Maricotinha parou o Rio

Há muito tempo não se reunia em um só palco estrelas de tamanha grandeza como na noite de anteontem no Canecão. O show de lançamento de "Maricotinha", em que Maria Bethânia comemora 35 anos de carreira, teve a participação de compositores como Chico Buarque, Gilberto Gil, Edu Lobo, Lenine - que têm músicas no CD - e também de Caetano Veloso, Dori e Nana Caymmi e Arnaldo Antunes. Só faltou Gal Costa, que ficou em Salvador. A reunião fez lembrar os antigos shows do Dia do Trabalho. Se as festas do 1 de Maio tinham cunho político, a da cantora era a celebração de uma das mais brilhantes carreiras da MPB. 

Em meio a convidados VIPs - na platéia estavam Fernanda Torres, Ciro Gomes e Patrícia Pillar, Elba Ramalho, Antonio Dias, Marieta Severo e Regina Casé - Bethânia contrastava pela informalidade com que comandou o espetáculo. Vestida com uma calça de chamois e uma camisa de malha branca, a cantora recebeu os convidados como se estivesse na casa de dona Canô, em Santo Amaro da Purificação. Entre uma música e outra, ganhou (ou deu) inúmeros beijos na boca - o mais efusivo deles de Adriana Calcanhotto - foi reverenciada por Chico Buarque e se esbaldou com as escorregadas de Nana e Dori Caymmi em "Maricotinha", de Dorival, música-título de seu recém-lançado disco. 

- Até agora, nem fiquei ocupada em avaliar esses anos todos de carreira. Eu me ocupei, sim, de fazer um disco - disse Bethânia, ao fim do show, sentada diante do altar montado por ela mesma no camarim. - Hoje estou muito feliz, principalmente por conta dos compositores que aceitaram participar do show e ensaiaram a valer. Isso acabou virando uma festa da MPB. 

Festa é pouco. Além de reunir diversas gerações de músicos, o show, dirigido por Bibi Ferreira - e filmado a pedido de Bethânia por André Horta, da TV Zero - perpassou toda a carreira da cantora. Nelson Motta falou sobre o impacto de ter ouvido pela primeira vez a voz da baiana antes de a afiada banda dar a deixa, tocando as músicas "Maria Bethânia" (a de Capiba e a de Caetano) para a entrada da cantora com Caetano Veloso. Eles lembraram "É de manhã", primeira canção do irmão gravada por Bethânia. Depois a baiana mesclou canções do novo CD com clássicos como "Plantar pra dividir", de João do Vale, e "Opinião", de Zé Kéti, marcos do musical homônimo que marcou a chegada da cantora ao Rio, em 1965. No telão, fotos do arquivo pessoal de Bethânia e de arquivos de jornais. Como ponto alto, as imagens de Nara Leão, a quem ela substituiu no "Opinião". 

A bossa nova foi homenageada com "Primavera", que teve participação de Carlos Lyra e de uma desambientada Mariana de Moraes. Gil emocionou com "Lamento sertanejo" e "Viramundo" e Adriana Calcanhotto e Ana Carolina, que têm composições em "Maricotinha", mostraram que Bethânia já tem suas herdeiras musicais. 

- Bethânia é minha referência. Quando me pediu uma música, fiquei tremendo. Foi tão forte o que rolou que "Pra rua me levar" ficou pronta em dois dias - contou Ana Carolina. 

Arnaldo Antunes e Branco Mello dão o tom pop 

Na platéia, Elba Ramalho foi além: 

- Eu saía da Paraíba para assistir a shows da Bethânia quando tinha 17 anos. Ela representava o meu desejo de vir para o Rio. Ela e a Bibi são referências para qualquer artista brasileira. Pela presença cênica e por não fazerem concessões. 

Mesmo na hora de ousar, Bethânia acerta a mão. Foi assim no convite feito a Arnaldo Antunes e Branco Mello para cantar com ela "Quando você não está aqui", de Herbert Vianna e Paulo Sérgio Valle. O trio protagonizou um dos momentos mais interessantes da noite, que teve a renda destinada ao Instituto Nacional do Câncer. Mas o ponto alto foi o encontro com Chico Buarque, depois de mais de 20 anos sem dividirem um palco no Brasil. Os dois cantaram "Sem fantasia" e, em seguida, receberam Edu Lobo para apresentar "A moça do sonho", do musical "Cambaio". 

O show terminou com um medley de Gonzaguinha, que incluiu "Começaria tudo outra vez" e "O que é o que é", e com uma chuva de pétalas de rosa. 

- Bethânia é uma catalisadora. Ela tem a cultura histórica da MPB - definiu Caetano. 

Gilberto Gil fez coro: 

- Ela, com o seu jeito quieto, faz coisas grandiosas através do seu trabalho. Hoje é o dia da rainha

Isabel De Luca e João Pimentel 
O Globo
10/09/2001

:: Uma festança para Maria Bethânia ::

:: Veja fotos do espetáculo ::