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O novo ato da voz teatral

No dia 27 de maio de 1999, Maria Bethânia começou a representar mais um ato de sua obra teatral. Naquele dia, estreava em São Paulo o espetáculo "A Força que Nunca Seca", em que a cantora percorria o interior do Brasil num trenzinho caipira que interligava as origens de seu canto, desde a estação inicial - uma explosiva parada no Teatro de Arena (RJ), em 1965, para substituir Nara Leão no espetáculo "Opinião", que projetaria Bethânia nacionalmente a partir de sua vigorosa interpretação de "Carcará" - até uma revigorante volta às origens baianas de Santo Amaro da Purificação, representada no roteiro pela inclusão da então inédita "Recôncavo". 

Nesta viagem interiorana e sentimental, Bethânia foi guiada em cena pelo diretor Fauzi Arap, um dos mais fiéis condutores do canto teatral da "Abelha Rainha". Fauzi é velho companheiro de coxia. Foi com a direção dele que Bethânia, em 1967, começou a construir a identidade cênica de sua carreira solo no show "Comigo me Desavim". A aplaudida viagem pelo interior do Brasil ainda percorre os palcos brasileiros, mas já está registrada para a posteridade neste CD duplo, gravado ao vivo em agosto, durante as três semanas da temporada carioca de "A Força que Nunca Seca", no Canecão. O disco traz a íntegra do show, em 27 faixas . 

É fim de século e de milênio. Momento revisionista que inunda o mercado de retrospectivos discos ao vivo. Não é o caso deste álbum de Bethânia. Por ser uma cantora essencialmente teatral (adjetivo que chega a soar óbvio de tanto que é associado ao seu canto), Bethânia precisa da cena. É no palco que exerce com plenitude e devoção o seu ofício. Logo, o disco ao vivo é uma necessidade de registrar os momentos máximos de sua trajetória. Necessidade preenchida desde 1968, quando Bethânia lançou o seu primeiro álbum fora dos estúdios, o antológico "Recital na Boite Barroco". Pois este novo trabalho - o décimo terceiro ao vivo de sua trajetória - vem-se somar à esta discografia repleta de chão. 

O show é dividido em três atos. No primeiro, Bethânia canta as forças da natureza. O mar de Dorival Caymmi. As matas do sertão enluarado. A força dos orixás. No segundo ato, o amor domina a cena. É a Bethânia sentimental - fiel discípula de estrelas como Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira - que comanda o show. Para depois arrematá-lo num politizado terceiro ato. É quando os versos de compositores como Chico Buarque e João do Vale lembram que à fome também cabe uma infeliz parte neste latifúndio desigual chamado Brasil. Com o show, Bethânia reafirmou sua força e majestade. O disco vem agora confirmar o que todos já sabem: em cena, ela é a maior intérprete do Brasil. 

O repertório, faixa à faixa:
CD 1 

1::Senhora do Vento Norte/Gema - A banda toca a introdução de Senhora do Vento Norte para preparar a aparição de Bethânia, que entra em cena cantando Gema, música do mano Caetano Veloso, gravada por ela em 1980, no disco Talismã, regravada em A Força que Nunca Seca e agora incluída neste disco ao vivo. 

2::Vida - É música das mais intensas de Chico Buarque. Foi lançada pelo autor em 1980 e logo incluída por Bethânia no roteiro do show Nossos Momentos, que rendeu um disco ao vivo em 1982. Este é o segundo registro fonográfico da música por Bethânia. 

3::Cacilda/Drama - Cacilda é uma pérola de José Miguel Wisnick, feita em reverência a Cacilda Becker, grande dama do teatro brasileiro. Neste registro ao vivo, a música ganha em teatralidade. Sobretudo porque é emendada no roteiro com Drama, música de Caetano Veloso que deu título ao disco de estúdio lançado por Bethânia em 1972. A junção de Drama e Cacilda foi genial sacada do diretor Fauzi Arap. 

4:: O Tempo e o Rio/O Mar - Duas músicas que também estiveram unidas no roteiro do show Rosa dos Ventos, de 1971. Primeiro grande sucesso de público e crítica da parceria firmada por Bethânia com Fauzi Arap, Rosa dos Ventos também rendeu um disco ao vivo e foi marco decisivo na consolidação da identidade cênica de Bethânia. O Tempo e o Rio é parceria de Edu Lobo com Capinam e foi originalmente gravada por Bethânia no seu disco de 1969 . O Mar leva a assinatura inconfundível de Dorival Caymmi. 

5::Morena do Mar/Suíte dos Pescadores - Mais Caymmi neste medley marítimo, que inclui Avarandado, música de Caetano Veloso, incluída por Bethânia no já citado Rosa dos Ventos. Detalhe: Bethânia também gravou Morena do Mar em Dorival, CD que comemorou, em 1994, os 80 anos do mestre das canções praieiras. 

6::2 de Fevereiro/Agradecer e Abraçar - O momento da festa para Iemanjá, deusa das águas. 2 de Fevereiro, claro, é de Caymmi e foi gravada pela cantora no disco Maria Bethânia, de 1969. Agradecer e Abraçar é parceria recente de Vevé Calazans e Gerônimo, gravada por Bethânia no disco A Força que Nunca Seca. 

7::Recôncavo - Música inédita do compositor Márcio Valverde. Foi lançada no show e ganha seu primeiro registro na voz de Bethânia, sempre fiel aos cantos de sua terra. 

8::Luar do Sertão/Azulão - Momento reproduzido do disco A Força que Nunca Seca. Toda a nostalgia das noites de luar sertanejo se funde com a saudade da amada. Luar do Sertão é clássico de Catulo da Paixão Cearense. Azulão é música de Jaime Ovalle em poema de Manuel Bandeira. 

9::Trenzinho Caipira/O Trem de Alagoas - Outro momento sublime que veio do disco que originou o show. O trenzinho de Villa-Lobos se emparelha com a prosa do trem do poeta Ascenso Ferreira. Um dos números mais aplaudidos do show. 

10::Romaria - A versão ao vivo de Bethânia realça a dramaticidade dos versos desesperançados da letra, menos declamada no show do que no disco A Força que Nunca Seca. 

11::Assombrações/Senhora das Tempestades - Assombrações é outra pérola do show Rosa dos Ventos. É parceria de Sueli Costa com Tite de Lemos. Já Senhora das Tempestades é um texto do jovem poeta português Manuel Alegre, declamado em cena por Bethânia com grande dramaticidade. 

12::Iansã - Bethânia saúda a Senhora das Tempestades com esta parceria de Caetano Veloso e Gilberto Gil, lançada por ela no disco Drama, de 1972. Foi cantada também no show Drama 3 º Ato/Luz da Noite, registrado em disco em 1973. Na introdução, a cantora cita As Ayabás, gravada por ela no disco Pássaro Proibido de 1976. 

13::Doce Mistério da Vida - Terceiro registro ao vivo da canção na voz de Bethânia. Os Anteriores estão em Rosa dos ventos, Maria Bethânia e Caetano Veloso e Nossos Momentos. 

CD 2 

1:: Outra Vez - É a primeira vez que Bethânia grava esta canção, um grande sucesso lançado originalmente por Roberto Carlos em 1977. 

2::Não Tenha Medo - É do compositor Miltinho Edilberto, uma das revelações do forró. Nessa versão ao vivo, a música ganha o tom e a pulsação exatos. 

3::Mel/Encouraçado - Mel deu título ao disco lançado por Bethânia em 1979, quando ela desfrutava do privilégio de ter sido a primeira mulher a romper a barreira do milhão de discos vendidos. Foi a partir dos versos do poeta Waly Salomão que Bethânia passou a ser chamada de Abelha Rainha. Encouraçado foi gravada no disco que trouxe o registro ao vivo do show A Cena Muda, em 1974. 

4::Resposta/É o Amor - A música de Maysa é uma espécie de declaração de princípios ("eu só faço aquilo de que gosto e aquilo em que creio"). Esses versos são a resposta cênica da cantora para os que a atacaram preconceituosamente pela regravação de É o Amor, o primeiro sucesso da dupla Zezé Di Camargo & Luciano, que, claro, vem logo a seguir no roteiro. 

5
::Fala Baixinho/Diamante Verdadeiro - Fala Baixinho é um choro-canção composto por Pixinguinha em 1964 com o nome de Mascate. Anos depois, ganhou letra de Hermínio Bello de Carvalho e foi rebatizado Fala Baixinho. Diamante Verdadeiro é de Caetano Veloso e abriu o disco Álibi, de 1978. Ao longo de 1979, o álbum romperia a barreira do milhão de cópias vendidas, sedimentado a carreira de Bethânia no mercado fonográfico. 

6::As Flores do Jardim da Nossa Casa - Música melancólica de Roberto Carlos, lançada pelo Rei no seu álbum de 1969, regravada por Bethânia no disco A Força que Nunca Seca e incluída no roteiro desse show. 

7::Resto de Mim/Olhos nos Olhos - O vazio dilacerado no fim de um paixão, seguido pela superação e a necessária volta por cima. A desesperançada Resto de Mim é parceria de Roberto Mendes com a poeta Ana Basbaum. Número sempre presente nos shows de Bethânia, Olhos nos Olhos é a triunfante volta por cima, captada pelo sensível olhar feminino do autor Chico Buarque. 

8::Eu Queria que Você Viesse/Sonho Meu/Vazio - Um bloco apaixonado que prepara o clima para o set mais politizado do show. Eu Queria que Você Viesse é uma toada-canção de Marisa Monte e Carlinhos Brown. Sonho Meu, saudade metaforizada para clamar pela volta dos exilados políticos no Brasil ainda amordaçado de 1978, é Dona Ivone Lara e foi um dos grandes sucessos do disco Álibi. Já Vazio (Está Faltando uma Coisa em Mim), de Nelson Rufino, foi sucesso nacional na voz de Roberto Ribeiro em 1979. É a primeira vez que Bethânia canta a música num show. 

9::Marginália II/A Força que Nunca Seca - O terceiro bloco temático do show denuncia o caos social e político do País. Marginália II, música de Gilberto Gil lançada pelo autor no seu segundo disco solo, de 1968, não isenta nenhum brasileiro da culpa pela situação denunciada com sublime poesia na música A Força que Nunca Seca, parceria de Chico César com a estreante Vanessa da Matta. 

10::Assentamento/Carcará - A má-distribuição de terra e o descaso das autoridades são dois fatores responsáveis pela gritante injustiça social do seco sertão brasileiro. Isso é o que sintetizam na forma de poesia duas músicas-irmãs de épocas tão distintas. Assentamento é da produção recente de Chico Buarque. Foi composta para o CD que veio encartado no livro Terra, de Sebastião Salgado. Carcará, de João do Valle, foi o marco da explosiva participação de Bethânia no espetáculo Opinião, de 1965. 

11::Roda Viva/Maninha - Chico Buarque em dois tempos, unidos pela necessidade de expressar opinião em tempos calados. Roda Viva é da peça homônima e foi cantada pelo autor em 1968. Maninha é de 1977 e foi lançada no disco Miúcha & Antônio Carlos Jobim, de 1977. Já havia sido incluída por Bethânia no show que fez com Caetano Veloso em 1978 e que gerou um disco ao vivo. 

12::Navio Negreiro/Um Índio - Se Castro Alves tivesse andado pelas ruas de Ipanema, o poeta baiano talvez fosse impulsionado pela miséria exposta nas ruas a escrever outra obra-prima como o Navio Negreiro, parcialmente recitado por Bethânia num dos momentos mais intensos do show. Um Índio, emendada com o poema, é de Caetano Veloso e foi lançada pelo autor no disco Bicho, de 1977. 

13::Vila do Adeus - "Lenços que cortam laços". A canção da despedida, de Roberto Mendes e Jorge Portugual, prepara a saída de Bethânia de cena. 

14::Na Carreira - "Hora de partir quando o corpo quer ficar". A música de Chico Buarque e Edu Lobo anuncia o fim do show. 

 

Release distribuído à imprensa pela BMG para a divulgação do CD